história de joia


Anos atrás eu escrevi e dirigi um filme em que, no contexto de um ensaio de teatro, uma das personagens questiona outros dois sobre a profundidade de sua criação. Hoje eu me arrependo um pouco desse momento, que apesar de ter sido planejado como um chiste metalinguístico soou muito mais como um movimento apologético meu enquanto criador, um pedido de desculpas por não ter desenvolvido tão bem aquelas pessoas e seus universos.

Achei curioso, e bastante cabível no fim das contas, que um dos capítulos deste História de Joia, romance de estreia do poeta Guilherme Gontijo Flores, tome exatamente o mesmo caminho que minha cena equivocada.

'Joia' é um breve mosaico de unidades que poderiam facilmente ser chamadas de contos, e se debruça sobre as experiências de um punhado de personagens em um dia comum, algo caótico, algo descolado da realidade como conhecemos. A premissa por si só é algo genérica, e talvez tenha sido esse um dos receios do autor, que adota uma estética e um fluxo narrativos que beiram o incompreensível para dar algum estofo a sua trama. 'Joia' é o típico é triste caso de leitura que parece ter sido minuciosamente calculada para dialogar apenas com seus pares, com o acadêmico, com o escritor de alta literatura, com o poeta formalista.

Talvez a experiência não fosse tão amarga, e frustrante, se não fosse essa passagem em que os personagens avaliam seus próprios espaços e agências enquanto narradores das histórias de outrem, em particular um outrem marginalizado e desprivilegiado.

'Você não tem porta pra abrir pra eles. Eles é que tem que arrombar.', diz a aparentemente mais sensata das partes no diálogo. Soa como um discurso meio frouxo depois de alguns capítulos onde um muito claramente homem branco tenta recriar o léxico 'da favela'. Toda estreia compreende um pouco de falha, um pouco de aprendizado, mas esse é certamente dos piores momentos da literatura brasileira nesse 2019.

História de Joia (★)
Guilherme Gontijo Flores, Brasil, 2019