vinte e nove notas sobre o apocalipse


1 - Jacques Aumont chama de raccord “um tipo de montagem na qual as mudanças de planos são, tanto quanto possível, apagadas como tais, de maneira que o espectador possa concentrar toda sua atenção na continuidade da narrativa visual.”

2 - Em sendo a arte do presente (tanto do ser/estar presente como de um oferecimento do espaço agora como presente, regalo) o teatro imagina o raccord a sua própria maneira. Há quem teorize como a luz é o montador fundamental do espaço de jogo teatral, mas há também quem tome essa como pedra fundamental do distanciamento entre a imagem filmada e a imagem presente. Se é impossível que um raccord de movimento se materialize num palco de teatro, forçar o espectador, literalmente em corpo e presença, para que produza ele mesmo a sua própria montagem, a sua versão dos fatos, é uma ideia particularmente potente, posto que não nova.

3 - Só existe arte se existe receptor.

4 - Só existe arte se o receptor tem a possibilidade de tomar essa arte para si, nas mãos, manipulá-la, moldá-la, andar num museu quase às escuras e topar com a grande mesa de uma família no quintal agradável da casa numa tarde de domingo.

5 - A paz é quebrada, um dos irmãos discute com a irmã. A grande mesa da família se transfigura em duas mesas, é o fim da iconografia familiar, refeições em torno do tampo de madeira. A mãe não aceita essa disputa, a grande mesa viram três, e nunca mais tornará ao que era. As laranjas que eram base do suco rolam pelo chão, os postais, memórias miseráveis do seio familiar como um talho profundo da pele, voam pelo ar e acabam no chão. Essa família, quase toda ela, é agora uma banda de rock onde ninguém sabe realmente o quê ou porquê toca, nem sabem realmente como tocar.

6 - Em seu texto 4.48 Psychosis, Sarah Kane não propõe nenhum raccord específico, nenhum corte que não o da cognição regular, mas está lá a possibilidade, na palavra, de pensar a exploração espacial que aquele corpo tão falido e destroçado propõe.

7 - Das características mais significativas e debatidas da carreira do Magiluth está sua pesquisa apontada para um teatro que alguns chamariam de pós-dramático, a narrativa que implode, o ator como jogador, o corpo como arma de destruição em massa. Então, apesar de parecer algo intrigante a escolha de montar um texto, digamos, tradicionalmente narrativo como o “Apenas o fim do mundo” de Jean-Luc Lagarce, não é difícil encontrar no campo vasto e seco da dramaturgia do francês um ambiente particularmente propício para que se injete uma energia de implosão.

8 - Na oficina realizada no fim do ano passado, onde parte do espetáculo foi exibido ao público em caráter experimental, um espectador questionou a razão para, em pleno ano da graça de 2019 no Brasil de Bolsonaro, um grupo teatral também conhecido pelo forte engajamento político que permeia suas dramaturgias decidir montar um drama familiar.

9 - Na montagem que está agora finalizada e em cartaz, o personagem principal revela seu figurino à quase metade da duração: uma camiseta velha e gasta, estampada com a obra “São Paulo não é nenhuma Brastemp” criada por José Leonilson em 1992, dois anos após se descobrir soropositivo. Cearense, nascido em 1957, Leonilson foi um artista plástico de carreira breve porém festejada, que dedicou seus últimos anos de vida a tentar transcrever, por intermédio da arte, a experiência do incômodo, de viver e ser um incômodo, do que é a briga contra o próprio corpo, do holocausto.

10 - Na montagem que está agora finalizada e em cartaz, a bateria usada em duas das mais desconcertantes cenas é decorada com um adesivo do ACT UP. O ACT UP foi (e é) um grupo de ativismo político internacional surgido em 1987, na urgência de alertar a população e pressionar os governantes para que tomassem atitudes quanto a flagrante situação da AIDS no mundo.

11 - Na montagem que está agora finalizada e em cartaz, e também no texto de Lagarce, Antônio, o irmão mais velho do protagonista Luiz, é tido como um homem bruto, virulento, preso a uma vida mundana de trabalho com materiais de construção enquanto seu irmão, intelectual, pode se dar ao luxo de usar apenas as palavras para viver. Desde sempre teve esse dom, de usar as palavras a seu favor. O homem simples e destituído de verbo tenta se impor contra o peso de um dicionário.

12 - O que há de não-político nesse texto? Seria a mesma coisa que há de não-política quando Damares e outros governantes promovem falas absurdas e violentas contra as populações LGBT para imediatamente a opinião pública desprezar o impacto desses ataques sob o signo de uma tal “cortina de fumaça”?

13 - Silêncio = Morte

14 - Uma Mulher Sob influência, filme dirigido por John Cassavetes e estrelado por Gena Rowlands em 1954 foi originalmente concebido como uma peça de teatro. No entanto, por conta de sua intensa e extenuante carga dramática, muito dura para ser levada a cabo várias noites por semana, a dupla logo decidiu que o amargo relato do dia-a-dia da dona de casa Mabel caberia melhor num filme. De maneira talvez mais conceitual (?) que prática, “Apenas o fim do mundo” me soa bastante como o ‘Mulher Sob influência’, do Magiluth. A parte impressionante é a disposição para, sim, levar a cabo uma intensa e extenuante tragédia 5 vezes por semana.

15 - Faz bem menos de um ano que assisti “Dinamarca” pela segunda vez, e para além da óbvia diferença de encenação (sobretudo no dicotomia arena/trajeto), me peguei muito comovido, e não sei exatamente porquê, com a fonte energética do elenco nesse novo espetáculo. O Magiluth faz um teatro que é do corpo inteiro, que viaja por absolutamente todas as células de seus atores até conseguir vazão. “Apenas o fim do mundo” propõe outra estrutura, no entanto. A vazão está perpetuamente concentrada na garganta, o corpo se move, se emociona, mas seu único e mais importante ponto de escoamento está na voz. É claro que há, sim, algum atropelo nesse processo. O texto de Lagarce não é propriamente uma ‘screwball comedy’ que demanda velocidade, que precisa acelerar para sustentar seu jogo, e vez ou outra se sente que os atores correm para dar conta desse texto, comprometendo algumas de suas nuances. Provavelmente um movimento pensado, e possível, e estranho. Pensando melhor, é uma coisa boa. É o tiroteio personificado.

16 - Jean-Luc Lagarce nasceu em 1957, assim como Leonilson, e morreu em 1995, dois anos depois daquele. Foi um prolífico, e amargamente pouco festejado em vida, dramaturgo, diretor e ator francês cujo texto era, na minha opinião, uma montanha a ser escalada. Uma parede muito branca e muito alta sem reentrâncias fáceis onde se apoiar. “Apenas o fim do mundo” não tem qualquer indicação precisa de encenação que não seja seu enigmático início: “A ação se passa na casa da Mãe e de Suzana, um domingo, evidentemente, ou ainda, ao longo de quase um ano inteiro.” Jean-Luc Lagarce era soropositivo.

17 - O que há de “não-político” nessa peça?

18 - Durante um mês, a poeta Ana Martins Marques alugou o apartamento do amigo e também poeta Eduardo Jorge, que viajara para a França. Durante o período os dois trocaram e-mails sobre coisas afins, mas sobretudo sobre o lar, o permanecer, o ir. Esses e-mails viraram um livro de poemas e um desses poemas diz: “Alguém partiu daqui / alguém lançou-se para a frente puxando no entanto / um fio forte ou fraco que o liga à lembrança desta casa / alguém levou a memória das paredes / dos móveis dos corredores das xícaras das cortinas / ela olha os objetos em seus lugares / e pensa que um duplo deles agora vive em outra cidade em outros cômodos / como uma casa no interior de uma casa / do outro lado do mar”.

19 - Há coisas que dizem sob a luz, impera a clareza, se faz necessário ser cristalino. Outras, sobretudo aquelas mais velhas, mais frágeis exigem um filtro, exigem observação à meia-luz, e ainda assim, vez ou outra, até essa luz frágil é suficiente para superexpor, para queimar, para destruir. O filme homônimo de Xavier Dolan, que também adapta o texto de Lagarce, não é exatamente bem sucedido enquanto narrativa mas entende muito bem o que a luz comunica.

20 - Volta e meia me peguei em dúvida quanto a lógica do espetáculo itinerante, de nem sempre poder compreender claramente uma cena, de nem sempre chegar no novo cenário no momento certo, mas não seria esse um bom começo? Um começo onde não somos nós que decidimos nada, vários começos e recomeços. Nos meus filmes, quando os dirijo, gosto de deixar o espectador chegar primeiro ao espaço, ao palco, e apenas depois a ação começa a se desenrolar. Pensei, no entanto, em como o vazio, o palco vazio, o plano vazio, são também estados de ação, todo o nada se faz preencher por algo, toda imobilidade contêm em si um porquê.

21 - A a obra “São Paulo não é nenhuma Brastemp”, de Leonilson, foi usada em 2018 como capa da edição de Nuvens, livro póstumo da poeta Hilda Machado. Neste livro há um poema chamado “[SEM TÍTULO]” que diz: Transitoriedade da alma / o que isso significa? Não sei, / deve ser que ela está aqui de passagem. / Só pode. Faz sentido. / Tem gente que vem a trabalho, / eu vim a passeio — e não gostei — / o resplandecer da alma é efêmero.

22 - Semanas atrás critiquei o texto de uma colega por ser demasiado fragmentado, agora estou arrependido.

23 - Em 1956 o dramaturgo Eugene O’Neill escreveu a peça “Longa Jornada Noite Adentro”, um mergulho muito profundo, e muito longo, na vida de uma família disfuncional à beira do mar de Connecticut. A ação decorre num único dia, desde cerca das 08:30 da manhã até à meia-noite. Segundo biógrafos de O’Neill, o texto é basicamente o autor se debruçando sobre sua própria vida.

24 - Não acho bonito nem de bom tom elogiar performances específicas num espetáculo, sobretudo quando todas elas se alinham e equilibram tão bem, mas há um poder muito grande na proposta de Erivaldo Oliveira para a figura da Mãe. Algo burguesa, nordestina de raiz que fala muito com as mãos, francesa que gosta de comer rãs fritas, falha, afinal, é uma personagem tão difícil quanto todas as outras, mas com o dever original de ser mãe, se olhar no espelho enquanto mãe, olhar para o barbante muito fino que amarra sua família e temer pela tempestade que pode rompê-lo. Tem tudo isso na interpretação de Erivaldo e não há alma que permaneça em paz depois de seu monólogo para o filho. Há toda uma legião de mães naquele texto e naquela voz.

25 - Assim como há uma legião de irmãs mais novas e confusas quanto ao que realmente devem sentir por esse ambiente a que damos o nome de família como a Suzana de Bruno Parmera, uma legião de irmãos mais velhos e potencialmente desprezados como o Antônio de Mário Sérgio Cabral, uma legião de cunhadas aparentemente bobinhas, lidas como frágeis e pouco importantes mas que guardam, justamente por sua respeitosa distância do seio familiar, boa parte da chave para se entender o que de errado aconteceu ali, assim como é a Catarina de Giordano Castro. Até mesmo (ou sobretudo) a fantasmagórica presença de Lucas Torres como o fantasma contrarregra baterista é imprescindível aqui.

26 - O prólogo de “Dois Garotos se Beijando”, livro do americano David Levithan diz: “Vocês não têm como saber como é para nós agora; sempre estarão um passo atrás. Agradeçam por isso. Vocês não têm como saber como era para nós antes; sempre estarão um passo à frente. Agradeçam por isso também. Acreditem em nós: existe um equilíbrio quase perfeito entre o passado e o futuro. Enquanto nos tornamos o passado distante, vocês se tornam um futuro que poucos de nós poderiam ter imaginado. (...) Houve uma época em que éramos como vocês, só que nosso mundo não era como o seu. Vocês não fazem ideia do quanto chegaram perto da morte. Uma geração ou duas antes, e vocês talvez estivessem aqui conosco. Nós nos ressentimos de vocês. Vocês nos deixam pasmos.”

27 - Existiu (e existe) uma legião de Luizes, homens e mulheres e pessoas que sucumbiram ou atravessaram o seu próprio Holocausto, o Holocausto deles. E deveria ser desnecessário salientar o quanto essa memória não deve ser apagada, o quanto uma chuva de potes de AZT é uma imagem a se guardar, o quanto se deve reverenciar os que foram e os que ficaram para contar.

28 - Hoje, mais do que nunca, entender os caminhos para estar com o outro, estar disponível para o outro, é um exercício extremamente político.

29 - Nossa família a gente inventa.


Apenas o fim do mundo (★★★)

Grupo Magiluth, Brasil, 2019