satantango


Das tantas coisas impressionantes em Satantango, a maior é talvez o fato deste ser apenas o primeiro livro do húngaro László Krasznahorkai, lançado quando ele tinha por volta de 30 anos. As vozes que falam aqui parecem àquelas de alguém com muito mais idade, a quem a vida já teve muitas oportunidades para decepcionar.

Mais conhecido pela monumental adaptação cinematográfica de Béla Tarr, é curioso que livro e filme conversem tão bem apesar de trabalharem com propostas estéticas quase diametralmente opostas. Enquanto Tarr, em todo o seu cinema, utiliza o tempo, a pausa, o peso das horas e o reverberar das escolhas como personagens, László é bem mais econômico, sufoca mais pelo amontoar de questões do que pelo caráter rarefeito delas. E ainda achar espaço para ser bem-humorado. A lembrança de Tarr me faz pensar também nos cinemas de Haneke, Von Trier, ou mesmo Iñarritu, cineastas que tem verdadeiro tesão pela exploração pornográfica do podre e do trágico no ser humano. Ainda que a mídia seja outra, Satantango, o livro, é um exemplo interessantíssimo de como se pode, sim, falar sobre o feio do ser humano com muito apuro, pouco choque, pouca apelação. O que afinal a adaptação também segue.

Das leituras mais misteriosas que fiz os últimos tempos, a breve trama segue um grupo de moradores num local ermo e inóspito, que aparentemente já rendeu promessas de prosperidade e hoje se assemelha mais a um cemitério, talvez um limbo de almas perdidas. Flutuando entre um punhado de pontos de vista e suas mini narrativas trágicas, que por sua vez orbitam em torno da enigmática figura do golpista/messias Irimiás, talvez a parte mais curiosa de Satantango sejam seus dois últimos capítulos, quando a trama política, distópica e algo religiosa se transforma numa bela, e discreta, alegoria sobre os exercícios da escrita, da tradução, do autor. É uma alegoria sempre perigosa, mas funciona, e funciona num primeiro livro, o que é mais impressionante ainda.

Satantango (★★★★★)
László Krasznahorkai, Hungria, 1985