barulhos + risco no disco


Muito interessante e inesperado esse encontro que acabei promovendo entre Ledusha, e seus princípios de anos 80, cheios de cultura pop e algum hedonismo, e os fins (ou mais especificamente o processo de chegar a esse fim) da mesma década observados no fortemente politizado e denso Barulhos de Ferreira Gullar. É sempre curioso observar, na prática, a multiplicidade da voz poética. Ainda vivendo as ressacas da liberdade setentista, Ledusha parece fazer um pequeno tratado sobre uma nova mulher, uma mulher possível, que está no controle mas também fraqueja, que é muito esperta ao passo que não teme expor sua imperfeição, uma mulher que busca algo na palavra afinal, na escrita física. Talvez por estarem efetivamente contaminados pelas mudanças dos 80, os Barulho de Gullar tomam uma rota algo oposta. Muito dependentes da página, do olho leitor, como em quase toda obra do poeta, essa é uma coletânea interessada na reflexão de presente-passado que se reformula tão rapidamente quanto uma tangerina que apodrece na fruteira (possibilitando assim que o poema exista). Massa.

Barulhos (★★★★)
Ferreira Gullar, Brasil, 1987

Risco no disco (★★★★)
Ledusha, Brasil, 1981