arena + cinema circular


Recebi os livros do Fred mediante compromisso de uma leitura atenta, sabe-se lá o que isso significa. Ler o livro e dormir antes da décima página não é mau sinal se no sonho continuamos, nós, a escreve-lo. Não dormi ao ler esses voluminhos, tão breves em extensão, mas sinto como fosse possível. Dormir para reescrevê-los. Temos as ferramentas. É bom quando um livro de poesia oferece no título as ferramentas para escavá-los, e não há outra maneira de pensar Arena e Cinema Circular que através de a) a cidade, uma arena b) a paisagem, o cinema c) a irrevogável força da natureza, o círculo, os bestiários de Ted Hughes, o estar-presente de Herberto Helder, a vida-agora de Bashô. São dois mistérios, esses livros.

Porque se há um desejo francamente estomacal e biliar de olhar para o mundo com o desprendimento (e a dor, afinal) que só os doloridos, como nós, tem a paciência de investir, há também o oposto, há também um desejo muito frontal pelo afago. Com que força "e todos os dias / arrumar maneiras / de / morrer / um pouco mais" se opõe a "estou agarrado à vida"? É um questionamento relevante? Arena foi editado em março de 2017, o Cinema Circular não tenho certeza, a edição não diz, mas me parecem ser filhos de uma mesma guerra. São cartas de guerra, se assim quisermos. Relatos fundamentados naquilo que costumamos chamar de memória mas ninguém sabe bem o que são.

A captura de uma imagem é a materialização da memória? No que reverbera a captura de certa "montanha imóvel / e dois cavalos soltos, / pastam a terra do olho"? Os poemas menos cansados são os poemas que não olham e delimitam mas que emolduram e dão a ver, e me parece que está aí a poesia do Fred, seu caráter cinematográfico (não videoartístico): Recortar a imagem em 16:9 (ou 4:3, prefiro), e na imagem a arena, o ciclo, "agora cicatrizes", agora um milagre de luz (?).

PS: Não sei a razão mas estou com o título de um livro do Cadão Volpato na cabeça: Pessoas Que Passam Pelos Sonhos. É isso.

Arena (★★★★)
Frederico Klumb, Brasil, 2017

cinema circular (★★★★)
Frederico Klumb, Brasil, 2018