demônios domésticos


Queria poder resumir minha dificuldade com esta coletânea de Tiago Germano à seu formato-base, a crônica, que muito pouco (nada, quase) dialogo comigo, minhas preferências estéticas, e etc, mas o fato é que não é apenas a breve duração e o caráter anedótico inerente aos textos que me incomoda, o conteúdo também não ajuda.

Aparente rebento de uma geração que levou muitíssimo a sério suas lições de escrita criativa e seus estudos do 'grande romance', é notável o esmero investido pelo escritor paraibano em cada linha, cada vírgula, o que infelizmente (e, outra vez, talvez pelo formato) não me furta de aproximá-lo de um Luís Fernando Veríssimo ou Rubem Braga, o que não necessariamente é uma coisa boa.

Tanto em estrutura quanto em temática (estão aí os episódios definitivos da infância, as agruras do ambiente de trabalho, os erros e acertos do dia a dia), os textos de Germano me deixam com esse sabor noventista na boca, e com a impressão nem sempre agradável de estar vendo o mundo pela ótica do homem, branco, culto, classe média e um pouco machista ("eu cedi porque minha alma de mulher", vai me incomodar por algum tempo ainda).

Não se trata de um desperdício de leitura, no entanto, para aqueles que de fato se interessam por esse gênero literário o texto de Germano tem muitíssimo a ensinar. A compactação que o rapaz aplica a seu texto é de fato bastante impressionante. Ele diz o que quer dizer com propriedade e vai embora; infelizmente só não conversou muito comigo.

Demônios Domésticos (★★)
Tiago Germano, Brasil, 2017 / Le Chien