asako i & ii


Não me parece muito apropriado pensar um filme a partir de coisas que ele não é mas boa parte da primeira sequência de Asako me fez pensar no cinema dos Irmãos Lumiére, na angularidade, na profundidade, e sobretudo em como estabelecer o espaço era importante em suas escolhas. Os ambientes nesse início de Asako parecem ser dependentes do movimento, não existem por si só, o que é uma pena. Por que o drama não pode simplesmente inserir-se no espaço? É estritamente necessário que a ideia de um palco despido (também valida) domine, ou quiçá seja excludente, com a interação entre paisagem e humano, aquilo que vemos e aquilo que nos move? A dramédia/romance parece habitar um estado eterno de suspensão, quase onírico eu diria, talvez por essa cooptação do espaço como mero invólucro (translúcido), o que de certa forma funciona. É ainda mais curioso que o deslocamento geográfico seja tão importante para Hamaguchi, mesmo que assumindo um caráter estritamente arbitrário dentro da narrativa. Até quando a vida estará lá, e não aqui? Talvez seja o preço a se pagar quando se decide retornar ao fabulário do duplo; não é uma história que cabe mais num mundo como propriamente o conhecemos. Resumindo, das coisas mais estranhas que vi nos últimos tempos.

Asako I & II (★★★★)
Ryûsuke Hamaguchi, Japão/França, 2018