temporada


temporada estreou ontem.

temporada é um dos melhores (e maiores, porque melhor é relativo) filmes do novíssimo cinema brasileiro, da retomada, de todas as fases dessa filmografia de vera cruz [quem discorda não aguenta 5 minuto de porrada comigo, bora ver] .

grace passô. zezé e russão.

andré novais oliveira, e aí a gente pode discutir umas coisas sobre que representação é essa do pobre, do trabalhador, do agente da dengue que bate de porta em porta num dia de calor infernal e como se faz para filmar essas pessoas com alguma dignidade, e não que andré seja um privilegiado apontando sua câmera num pretensamente afetuoso plongée, mas sim porque ele é dali, de contagem. e só se pode ter afeto pelos seus iguais? não, e todo dia vou tirar sean baker da cartola para provar que não, mas é preciso se colocar ali, de verdade, e se colocar ali de verdade é não se esconder atrás dos guarda-chuvas da "memória".

e roteiro.

e roteiro que está no que eu acabei de dizer mais ainda assim. porque você tira um guia de roteiro da bolsa quando você pode tirar um ingresso e aprender, assim, porque o ato de sentar em seu novo quintal e ouvir música no celular e atirar uma bolinha na parede esperando que ela pule de volta pra suas mãos é (e como não haveria de ser?) um grande, enorme, exemplo de potências narrativas (que cabem também no papel, e isso é difícil).

uma cena: juliana visita russão, que recebe outra visita (spoiler?), juliana fica feliz por vez seu amigo feliz e vai embora. sabendo o que sabemos, ela está, sim, feliz, mas não muito, não pode estar tão feliz assim, e vai descendo essa ladeira em contagem, e essa câmera que observa com uma ternura muito rara para um cinema brasileiro que foi (compreensivelmente) endurecido; um momento.

é o que mais me interessa em cinema, antes e/ou depois e/ou durante pensar no gesto, no político, na mise-en-scène, no que pensaria béla balázs, eu penso no momento. como se conceitua o conceito de uma polaroide, não como foto nem como recorte, mas como o mais unitário e bem emoldurado momento (do latim, impulso). momento é uma porção de tempo que te leva a outra, e mais outra. pensemos o cinema, negro, proletário, militante, como cinema, antes? talvez. temporada é o cinema, negro, proletário, militante, cinema antes. e aí discutiríamos o cânone, talvez, mas não discutiríamos a verdade que cabe num momento. tomar café e comer bolo e esperar notícias de casa, que é, a vida de qualquer um, todo o espectro.

se tenho alguma influência em suas escolhas do fim de semana, vá ver temporada.

Temporada (★★★★½)
André Novais Oliveira, Brasil, 2019