o peso do pássaro morto


Existe uma franqueza quase desconcertante nos rumos que a protagonista de Aline Bei toma neste O Peso do Pássaro Morto, e digo quase porque se trata de um incômodo tão milimetricamente cortante e pontuado que periga soar excessivo aqui e ali. Brevíssimo romance (novela?) sobre a vida de uma mulher observada em pontos chave de sua vida -desde a perda de uma amiga na infância até a perda completa de si na maturidade-, essa personagem não-nomeada é também despida de pulsões próprias. Numa vida inteira que parece ter sido dedicada à afirmar e reafirmar a certeza de que nunca se encontraria por completo em nenhuma área e mais tragicamente no lugar materno que foi forçada a habitar, é preciso, talvez, pensar o livro de Aline como uma alegoria, uma superexpansão daquilo que tantas mulheres sofrem diariamente. Em 2017, quando da leitura de 'Uma Vida Pequena', de Hanya Yanagihara, atravessei um processo parecido. A vida do protagonista Jude St. Francis era tão irrealisticamente repleta de tragédias e infortúnios que tentar ler sua via-crúcis por um prisma realista era praticamente impossível.

Mesmo que inspirada no Carrascoza de 'Aos 7 e aos 40' com seu olhar lúdico para o tempo-numeral e não em Yanagihara, Bei guarda neste livro uma semelhança interessante com a autora americana; apesar de ser um livro cujo próprio objeto físico deve tanto à ideia de tempo, a narrativa em si parece bastante efêmera quando se tenta posicioná-la temporalmente. É uma história para muitas mulheres, para todas as eras. Talvez a opção da autora por uma linguagem poética de orações partidas e eventuais concretismos seja a maior aliada nessa empreitada de pensar o livro com tintas mais carregadas, com um pesar teatral (de fato, exatamente da maneira como está posto funcionaria muito bem num palco), ainda que essa mesma construção soe também arbitrária vez ou outra. Tem algo de inacabado, mas é nas falhas que se encontra a verdade de um processo.

O Peso do Pássaro Morto (★★★)
Aline Bei, Brasil, 2017 / Nós-Edith