nuvens [na seção de congelados]


É muito comum (talvez mais do que realmente me apeteceria) que eu use o portentoso "febril" para me referir a algum exemplar da recente produção poética brasileira. Existe algo atravessado nessa garganta geracional pedindo desesperadamente para sair, e quando o método de vazão mais cabível é aquele da poesia somos brindados com uma histeria que metralha, e que tanto pode servir como meio de transporte eficaz para que esse anseio -do mais político ao mais ingênuo- ganhe voz, quanto pode soar apenas como isso, uma histeria que metralha, começo e fim e nada mais. Comento genericamente essa tendência porque não há nada, ou muito pouco, de febril nestas Nuvens de Lucas van Hombeeck. Caso tentasse posicioná-lo ao lado de muitos de seus contemporâneos, seu estilo algo árido, algo metódico, ainda bastante apaixonado mas atento às arestas dessas paixões (é capricorniano o Hombeeck?) se desvencilharia de boa parte das tentativas de agrupamento.

Os poemas de Nuvens [na seção de congelados] foram pensados e repensados em sessões colaborativas da agora extinta e mítica Oficina Experimental de Poesia (RJ), e apesar do processo de se abrir tão corajosamente para o dedo alheio me soar assustador, existe de fato um retorno que se vê na página, na imagem. Não tenho como opor os textos às suas versões anteriores mas são poemas, sobretudo o 'Processador de leito de fluidos...', dotados de uma cacofonia muito curiosa, uma amálgama de intenções canalizadas numa única voz: "eu não sabia mas o que você queria/ali era uma máquina de festas/juninas que simulasse o gosto/de chamar as pessoas pelo nome/e ainda que isso não fosse o bastante/seria vermelho diria chega/insira sua ficha"; o oposto da febre, me parece. Ou um esforço de não se deixar vencer pela garganta atravessada, pelo vômito eminente. 'Processador' é o mais tradicionalmente apaixonado, imberbe, poema da coleção, mas como se vê, de amor Hombeeck não morre. De todas as coisas apropriadas na brevíssima junção desses poemas, citar Age de Carvalho na epígrafe talvez seja a mais certeira: "às florestas de ácido e acrílico/desces,". E desces firme, mapa na mão, faca na outra.
P.S..: Não consigo passar impune a mais nenhuma nuvem, hoje em dia todas elas me cheiram a Hilda Machado.

Nuvens [na seção de congelados] (★★★)
Lucas van Hombeeck, Brasil, 2018 / 7Letras