lolita


Passei tantos anos ouvindo maravilhas (não infundadas, é verdade) sobre o poder narrativo de Nabokov ao construir a voz e a personalidade sedutora de Humbert Humbert, que já estava pronto para um improbabilíssimo momento de empatia ou mero tropeço nas palavras do protagonista. Não é o que acontece, e me impressiona muito que, à parte a questão de ser um incrivelmente bem construído exemplo do 'narrador não-confiável', alguém realmente se deixe seduzir pela ladainha elitista e arrogante da figura. Não é como se o autor não deixasse claro a cada virar de páginas que aquele homem é, sim e irrefutavelmente, um maníaco, e que sua predação para com Dolores Haze é unilateral. Não existe espaço para a menor acepção de que a garota, tenha a personalidade que tenha, é outra coisa que não uma vítima nas mãos maquiavélicas do pedófilo. Colocado isso, Nabokov tem, de fato, uma espantosa elasticidade narrativa, mesmo resvalando aqui e ali num chiste vazio, numa caricatura exagerada da América dos anos 50. Pode se pensar que H.H. é louco e seus filtros são difusos, mas me parece que certas coisas só surgem de uma lucidez muito perversa. Há quem sugira deixar a moral vigente de lado para se ler essa apenas como uma história de amor obsessivo, a essencial tragédia grega; não consigo e prefiro não fazê-lo.

Lolita (★★★★)
Vladimir Nabokov, França, 1955 / Alfaguara