o imitador de vozes


Sempre me pareceu que a microficção era a mais complexa e misteriosa das propostas literárias. Como fazer com que uma história descrita em poucos parágrafos, por vezes um só, não deixasse um sabor de anedota ou, caso a anedota fosse a intenção, como render a ela em tão pouco espaço substância suficiente para existir? Este Imitador de Vozes, então, é Thomas Bernhard experimentando as duas proposições. Punhado de contos mínimos que versam sobre as mais variadas tragédias, crimes, desastres e infortúnios, a coleção tem como ponto em comum uma crítica ferrenha e ácida às maneiras predatórias e dissimuladas de toda a sociedade europeia, com destaque evidente para a Áustria natal do autor. É difícil não ser repetitivo quando uma centena de contos com a mesma lógica e discurso se enfileiram, mas Bernhard é daqueles que usa um possível defeito a seu favor. Depois de algum tempo a repetição se transforma em transe, e a crítica ganha vozes, um cântico, com tudo aquilo que não funciona no mundo.

O Imitador de Vozes (★★★★)
Thomas Bernhard, Áustria, 1978 / Companhia das Letras