glória


Muito interessante reler o Victor em ordem inversa e num espaço de tempo tão curto. É possível notar bem as chaves, as arestas, os cacos da voz dele. Homens Avulsos, se era um livro-poema-performance, apinhado de citações visuais e composições concretistas, soa como um caminho natural a se tomar depois de Glória, texto mais tradicional mas ainda agraciado com uma anarquia aqui e ali, talvez por medo, por falta de certezas para com a própria voz. Aberto e fechado por chistes metalinguísticos, inteiramente pontuado por epígrafes e notas de rodapé espirituosas, é notável que a brincadeira moderada, limitada somente ao campo da palavra escrita, unidade histórica, não comportava completamente a visão do Victor, nesse sentido ele certamente amadurecia, mas aí o adendo de que Glória não é um livro imaturo. Claramente trabalhado numa frequência diferente daquela composta pela geração de Galeras, Pelizzaris e Cuencas, Victor encontrava um muito melhor balanço entre o farsesco, o fantástico e o puramente sentimental, e se safava por completo (ou tentava) da macholiteratura dominante no Brasil nos anos 00. Seu narrador, voz responsável por radiografar a trágica vida dos irmãos Costa e Oliveira, repete incessantemente o desejo de "Paz na terra para todos os seres" enquanto descreve o drama familiar incrustado num Brasil que adentrava os 2010 com algum resquício de fé e já um punhado de dúvidas. Quase tudo mudou mas é um desejo que permanece válido até hoje.

Glória (★★★★)
Victor Heringer, Brasil, 2012