conquistar, amar e viver intensamente


Existem 11 anos de espaço entre o Honoré de Canções de Amor, musical vivamente parisiense e todo reverente ao cinema de Jacques Demy, e o Honoré de Conquistar..., melodrama francamente verborrágico que parece dever muito ao teatro de Jean-Luc Lagarce, Patrice Chéreau e, sobretudo, Bernard-Marie Koltès, citado diversas vezes ao longo da trama. Cito o lapso temporal porque, talvez ignorando os experimentos interessantes propostos em Homem no Banho e Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar, parece que só agora ressurgiu aquele Honoré cronista amoroso, investigador curioso por tudo que existe num eminente vacilo da voz da pessoa amada, exímio dialoguista, acima de tudo.

Porque é uma questão, afinal. Como fazer um filme de pretensões e desejos de encenação tão teatrais honrar essa pulsão da fala como força motriz mas ainda assim ser um filme de cinema (o que para ele parece ser muito importante)? E antes dos questionamentos estéticos, como fazer um filme sobre um paixão arrebatadora, atravessada pelo fantasma da AIDS, e que portanto tem (ou escolhe ter) consciência de sua finitude.

De Canções de Amor parece retornar, além do conto de fadas ente o jovem cheio de vida e o homem talvez adulto demais, um caráter episódico, blocado, quase musical/operístico, que acena seu final trágico desde as primeiras passagens: o mundo em que essas pessoas viviam era este, e isso é o que é. Note-se que o personagem de Pierre Deladonchamps parece levar uma relação menos trágica com a sua doença no que diz respeito a ter acesso a meios que podem de fato o ajudar, mas isso não tem grande relevância, dado que Honoré tão recorta classe tanto quanto sentimento de época.

Certos amores noventistas já respiravam um aroma de revolução e esperança mas ainda se viam fadados à tragédia. A última sequência deste filme me remeteu automaticamente às primeiras linhas de 'Dois Garotos se Beijando', do americano David Levithan: "Vocês não têm como saber como é para nós agora; sempre estarão um passo atrás. Agradeçam por isso. Vocês não têm como saber como era para nós antes; sempre estarão um passo à frente. Agradeçam por isso também.(...)Houve uma época em que éramos como vocês, só que nosso mundo não era como o seu. Vocês não fazem ideia do quanto chegaram perto da morte. Uma geração ou duas antes, e vocês talvez estivessem aqui conosco. Nós nos ressentimos de vocês. Vocês nos deixam pasmos."

Perdoo tudo, até a conversa sobre cinema dentro do cinema; que outro lugar seria mais propício para falar de amor, afinal.

Conquistar, Amar e Viver Intensamente (★★★★)
Christophe Honoré, França, 2018