sebastopol e uma breve conversa com emilio fraia


Das estreias que 2018 trouxe, pouca coisa me pareceu tão impressionante quanto "Sebastopol", de Emilio Fraia, e uso impressionante porque não há outro termo cabível. Apesar de já ter colaborado num romance ("O verão do Chibo") com Vanessa Barbara e numa HQ ("Campo em Branco") com DW Ribatski, o compilado de três contos que leva o nome da histórica cidade russa soa não apenas como um novo batismo para o autor paulista mas também tem um vigor que reimagina a contemporânea literatura brasileira. De texto duro, discreto, e estranhamente virtuoso, Fraia associa suas breves histórias de trauma e ausência através de delicados fios sentimentais. Se não pensamos em termos de narratividade, "Sebastopol" é quase um romance, tamanha é a proximidade entre as intenções de suas personagens principais. É raro que uma leitura me deixe questões à porta da garganta, mas acontece. Felizmente, Emilio estava disponível para me responder algumas delas.

Pensando em específicos, a leitura do "Sebastopol" me impactou sobretudo por conta de uma simbiose entre dureza, assepsia, e melodrama que move as três narrativas. e me chocaram porque não lembro de nada na literatura contemporânea brasileira que conseguisse alinhavar esses dois caminhos de uma maneira tão fluida. "O amor dos homens avulsos", do Victor Heringer e "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas", da Elvira Vigna, na minha opinião dois dos últimos grandes livros a surgir por aqui, tratavam com esses sentimentos a partir de extremos, mas nunca os alinhavavam de fato. Me pergunto de onde surgem essas sensações, como se dá a gênese para costurar histórias dessa maneira tão "dúbia". Sei que os contos do livro estão em processo já há alguns anos, mas qual veio primeiro e como deu-se o processo dos outros?

EF: Os livros começam a ser escritos muitas vezes, de muitas maneiras. As ideias vão se transformando. A organização do "Sebastopol" em três partes, por exemplo -- conduzidas por um tom e ritmo parecidos, temas em comum --, foi um desses inícios. Mas o livro começou há muito tempo também, em 2007, quando publiquei um conto chamado "Sebastopol". Usei um pequeno trecho desse texto na primeira história do livro, então dá para dizer que esta é uma espécie de pedra fundamental da coisa. Depois, também aproveitei, no segundo e no terceiro contos, ideias que eu havia desenvolvido por volta de 2012. Na verdade, uma das chaves do processo de escrita do livro, de um ponto de vista mais íntimo, foi olhar para estes textos passados (e sentimentos) e tentar interrogá-los, enxergar o que estava por trás deles. Por isso o tempo é importante, uma paciência para que as coisas se mostrem. A forma final de cada uma das histórias (o encaixe das tramas, a construção mais detalhada dos personagens) se deu em 2017 e 2018. E elas foram concluídas na ordem: terminei o primeiro conto, depois o segundo e o terceiro, que foi o mais simples de ser escrito porque a narradora tem uma visão um pouco mais pragmática das coisas -- o que não quer dizer que seja uma história simples, pelo contrário.

Você trabalhou por bastante tempo como editor de literatura da Cosac Naify, que em seu auge era certamente o mais diverso e instigante ambiente editorial do Brasil, e apresentou para o país um sem número de nomes ilustres e curiosos de outras paragens, ou mesmo nativos. O trabalho editorial é nocivo para o escritor/criador se o pensamos como uma fonte inesgotável de referências e novos pontos de vista? Como lidar com as interferências no processo criativo, sobretudo naquele que se alonga?

EF: Muitas vezes queremos preservar o que acreditamos ser "nossa identidade", "nossa visão", não queremos ter muito contato com algo ou alguém que coloque o "nosso jeito" em risco, ficamos com receio de ver o que chamamos de "nosso jeito" ser transformado etc. Mas por mais que alguém se isole, estar no mundo é estar em relação às pessoas, às histórias, a tudo o que vemos, lemos etc. É inútil lutar contra. Essa pureza não existe, e no fundo é o contrário da arte. Arte é sujeira, e é a tentativa de criar uma ilusão de ordem a partir disso. O importante, acho, é fazer com que o contato com estas outras visões de mundo não gere angústia. A contaminação deve ser vista com bons olhos, sem medo, sobretudo porque, no fim, só podemos fazer o que podemos fazer.

Existe outra coisa muito curiosa no "Sebastopol" que é certo ato de "dar a ver". Me parece que corre agora certo vício, muito atrelado à "onda" da autoficção, de transformar percursos emocionais em trajetos minuciosos e precisamente pontuados, e não pelo virtuosismo que se inscreveria aí, mas pelo desejo de fazer com que o leitor não se distancie de nenhuma dessas possíveis inflexões. Ou seja, não é uma paisagem aberta, é um paisagem mediada, reobservada por uma terceira pessoa. No teu livro eu sinto que esses narradores são muito proprietários dessas narrativas, não existe essa mediação castradora apontando o quê e como deve ser visto; talvez por isso muitas pessoas pensam o livro como um suspense/mistério.

EF: Acho que a ausência é um tema forte. É um pouco sobre isso "O verão do Chibo" (irmão menor procura irmão maior que sumiu) e o "Campo em branco" também (vamos refazer exatamente uma viagem que fizemos um dia, mas isso é impossível porque tudo muda o tempo todo e nós também somos outros). No "Sebastopol", nas três histórias, acho que acontece algo parecido: o livro é guiado por elementos que faltam, por buscas, por uma tentativa de recuperação de algo. E isso dá às histórias um ar de mistério/suspense, uma filiação a esses gêneros (é como se os protagonistas fossem seguindo pistas, e é como se nós enxergássemos que, no fim, eles não enxergam muito bem). Mas obviamente é um truque, um parentesco falso com o gênero. Estou pouco ou nada preocupado com a resolução do enigma -- embora ele precise estar o tempo todo no campo de visão. Talvez porque no fundo eu não acredite que existam respostas ou que enigmas possam ser resolvidos. O que me interessa é o contrário: ampliar as possibilidades, os significados, criar ambiguidade, talvez tenha a ver com esta "paisagem aberta" de que você fala.

Mesmo quando foca numa pessoa de mais idade o livro ainda soa fortemente como uma meditação sobre certo amargor impregnado nas bocas da juventude brasileira. Me atraiu muito, por exemplo, essa imagem do acidente de Lena acontecer em 2013, o ano x da nossa própria avalanche e o fato de que ela, assim como os outros personagens, passam a assumir uma postura relativamente altruísta e consciente depois do trauma. Essa nossa avalanche política de fato te influenciou para além do quanto somos todos afetados por ela?

EF: Todos os livros dizem algo sobre o seu tempo. Mas trabalhar diretamente com a realidade ou denúncia política e social não é um valor em si. Pode funcionar e pode não funcionar, como tudo. Os melhores comentários sobre a realidade muitas vezes não estão no enredo, mas na forma, no tom, em algo pouco palpável, que está difuso em toda a narrativa. Acho que você está certo sobre o amargor, mas não foi algo que persegui deliberadamente. Acho que este livro (na medida em que o autor pode achar alguma coisa) tem mais a ver com autores de certa literatura íntima que passaram a ganhar terreno nos últimos anos, como o Julio Ramón Rybeiro, por exemplo, que no contexto latino-americano é o contrário dos autores mais famosos e comprometidos do boom (ele tem um texto mais discreto, em voz baixa, que considero muito eficaz).

Num questionamento parecido, também me marca muito certo pragmatismo cético de Nadia ao pensar nesse eterno retorno que nós fazemos para histórias já contadas, sobre como é impossível ver o novo, ser o novo de fato. Talvez teu olhar, e o do livro como um todo, sejam um pouco o de Nadia? Afinal, para quê contar uma história?

EF: Nadia é a personagem mais jovem do livro. Ela está ajudando um diretor de teatro mais velho e meio decadente a escrever uma peça de teatro e ao mesmo tempo tentando escrever uma história dela e, finalmente, precisando dar conta da própria vida -- ela terminou um namoro, isso só se insinua na trama, mas ao mesmo tempo parece estar em tudo o que ela faz. No outro conto, Adán conta a Nilo sua história, seu passado como motorista de táxi em Lima, sua relação com o pai e com o filho. É uma história que ele não gosta de lembrar, mas parece que precisa contar e lembrar. Acho que uma possível questão do livro tem a ver com isso: o jeito que contamos as histórias das nossas vidas -- para nós mesmos e para os outros. E como estas histórias no fim tomam o lugar do acontecido, fazendo com que as fronteiras entre o que aconteceu e o que se conta fiquem borradas e, no limite, desapareçam. Acho que essa é uma boa história para ser contada hoje em dia: uma história sobre contar histórias.

Sebastopol (★★★★★)
Emilio Fraia, Brasil, 2018
120pp, Alfaguara