novembro 18


novembro

pena você pode ter
por exemplo
de quem fica por trás
de quem fica por trás
do backhand de pete sampras
para todos os outros só
dez vezes no cartão americanas
e um poço fundo de farinha
que comporte muitos ovos
fazer a massa e abrir a casa
nunca mais jogar tênis
nunca mais jogar o tênis

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CINEMA

A Casa que Jack Construiu (-)
Lars von Trier, Dinamarca, 2018
Não restam dúvidas de que no Chaves do cinema mundial Lars von Trier é o Kiko.

Eu Não Me Importo Se Entrarmos Para a História Como Bárbaros (★★★★)
Radu Jude, Romênia, 2018

Vanishing Point (★★★★)
Richard C. Sarafian, Estados Unidos, 1971

Em Chamas (★★★★)
Lee Chang Dong, Coreia do Sul, 2018
A famigerada cena da dança no pôr-do-sol é a coisa mais próxima que eu tive de uma experiência de arrebatamento espiritual no cinema. Cafona mas verdade.

Sucker Punch (★★★)
Zack Snyder, Estados Unidos/Canadá, 2011

O Pequeno Mal (★★★★)
Lucas Camargo de Barros e Nicolas Thomé Zethune, Brasil, 2018
Toda vez que vejo um filme do Nicolas (e do Lucas, nesse caso), me choca muito a identificação estética, narrativa, sensorial que rola. Provavelmente meu diretor brasileiro favorito em atividade, mas entendo super quem não gosta, acha asséptico/excessivo, cinema feito por e para hipsters da FAAP. Não tento defender, o filme fala por si. O outro choque frequente é como o cinema inteiro cabe no rosto do João Paulo Bienemann. Que ator. Que filme.

Sol Alegria (★★★★)
Tavinho Teixeira, Brasil, 2018
O último plano de Sol Alegria é talvez a imagem mais impactante do cinema brasileiro em 2018. Olhar para trás como olhasse para frente. Esperar, planejar, que a hora de lutar ainda vem.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (★)
David Yates, Reino Unido/Estados Unidos, 2018
Agora me diz, pra quê? Pra nada! Vai arrumar um emprego, mulé! Sai do whatsapp! Tai pensando que ninguém abraça frango liso, é? Meu deus, essas meninas erram muito... Depois tu me diz, vi? O chute no cu que tu vai levar! To: J.K. Rowling From: Bianka Nicoly

Dead Horse Nebula (★★★½)
Tarik Aktas, Turquia, 2018
Sou fã e refém absoluto dessa "corrente" que tem sido revelada ano após ano no festival de Locarno. Narrativas mínimas, assépticas, duras, mas infusionadas com uma criatividade que supera em muito seus pares mais famosos e que chegam mais longe. Filme sobre ritos de passagem, tradição, novidade, queimar com fogo. Foda.

Those who are fine (★★★)
Cyril Schäublin, Suíça, 2017
Edward Hopper pintando um episódio de Black Mirror menos fatalista e mais interessado em pessoas do que em teorias do caos. Curioso.

Teto não familiar / THE BEAST (★★★★)
Lucas Ferraço Nassif, Brasil, 2018
Música de câmara.

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LITERATURA

Tibério Azul, Brasil, 2017 / Confraria do Vento

O que é isso que eu sinto? (★★★)
Marcela Egito, Brasil, 2018 / Cepe
Patricio Pron, Argentina, 2011 / Todavia

Giovana Madalosso, Brasil, 2018 / Todavia

Vaca de Nariz Sutil (★★★★★)
Campos de Carvalho, Brasil, 1961 / Autêntica
Pergunta "Um monstro EU, ou quem me fez?", sem resposta. Campos, ainda que morto, é o melhor escritor brasileiro em atividade.

Mariana Enríquez, Argentina, 2014 / Intrínseca

Aura (★★★★)
Carlos Fuentes, México, 1962 / L&PM
Não sou profundo conhecedor, mas sempre que penso num possível cânone da literatura mexicana são imagens como estas de Aura que me ocorrem. Um universo soturno como o do gótico inglês, mas marcado por uma fortíssima veia mística, ritualística, fantasmas de uma violência muito mais presente e enraizada (sempre volta a lembrança de Pedro Páramo). Pequena novela (ou conto) sobre o trabalho de um historiador numa casa que mais parece um caixão de concreto, Fuentes é quase perfeito na construção desse universo sombrio (e febril), de movimentos sugestionados e coisas vistas/não-vistas, como ocorrem em todas as boas histórias de fantasmas.

Água para Viagem (★★)
Lorena Martins, Brasil, 2011 / 7Letras
Fazer poesia não é fácil (mas é). Acho que não é preciso compartimentalizar essas duas ideias, e sim confundi-las. As vezes topo com uma poesia que me soa romântica (e não de amor), e me soa fácil demais. Não o fácil que é o oposto do difícil, mas o fácil que é irmão do efêmero, vem, passa, foi, não deixou nada num embrulho. Posso estar pecando em não ver que o efêmero é a linha de chegada, mas é isso. Gosto da poesia que deixa algo embrulhado na soleira da porta, e aqui no livro da Lorena quase não há embrulhos, só facilidades.

receitas do cerrado

I
saudade
derrama-se
o chá da xícara
até o colo queimar.

II
suor
molhar a ponta da língua
resvalar vestígios
emoldurar umbigos.

III
calmante
aos prantos,
corta-se a fúria
em copos de leite.

A Crackup at the Race Riots (★★★)
Harmony Korine, Estados Unidos, 1998 / Doubleday
Entre o sucesso adquirido como roteirista de Kids e diretor de Vida sem Destino, Harmony Korine teve tempo de escrever uma inclassificável coleção de cenas, pensamentos, listas, obituários, notas, e mais um sem número de passagens que revolvem em torno do mesmo universo de seus filmes: a América branca, marginal, violenta, racista, sexualmente confusa e que ainda acredita nos sonhos da 'terra livre'. Geralmente tido como uma coleção de contos, 'Crackup' me soa mais como um romance em primeira pessoa, descrito no mais radical fluxo de consciência; talvez uma criança pulando por canais de tv que não deveria estar assistindo, talvez um esquizofrênico vasculhando os cantos mais soturnos de sua mente. Como tudo aquilo que Korine faz como cineasta, é sujo, bem-humorado (para quem consegue se aproximar desse tipo de humor), e sobretudo seguro da própria aleatoriedade.

The Albertine Workout (★★★★)
Anne Carson, Canadá, 2014 / New Directions

A Briga dos dois Ivans (★★★★)
Nikolai Gógol, Ucrânia, 1835 / Grua Livros
Tive um primeiro e único contato com Gógol através da leitura de O Nariz e O Capote lá nos idos da adolescência. Naturalmente não me recordava do refinado humor e delicioso escracho que há nos textos do ucraniano, característica da qual, aparentemente, esta novela é a melhor representante. É necessário um domínio muito específico do texto e do personagem para fazer com que tramas cômicas e cíclicas, sobretudo essas em que a metalinguagem e a autoconsciência surgem com tanta intensidade, não sejam resumidas em seu chiste, em sua piada final, e os 'Ivans' de Gógol passam bem longe de serem encerrados apenas por sua conclusão. Talvez seja uma melhor introdução para suas obras do que os textos citados acima, mas não sou especialista para afirmar.

Cabra bem cabra (★★)
Barbara Stronger, Portugal, 2018 / Enfermaria 6
Estou no meu inferno astral, minhas leituras de poesia parecem me acompanhar. Gostar de quatro ou cinco momentos num livro é sim, inferno astral. Não dá para ser categórico, dado o talho potencialmente hemorrágico que a poesia é (tem que ser, bom que seja), mas essa voz da Barbara Stronger me soa toda moldura e pouco quadro, muita franja e pouco vestido; afetação, a palavra, mas não de afetar-se, mais de afogar-se em si, acreditar que o recorte ritmado da sua memória de infância, do seu amigo esnobe, da sua passagem pelo mundo do homem é por si só um atentado poético. Não é. Onde está o talho, o quadro por dentro da moldura, o vestido que sustenta as franjas, que lhes dá movimento? "Assim sou eu! Mal/acabo de escrever um/poema, vejo que poderia/ter escrito outro ou um/muito, muito melhor." Acredito.

O véu erguido (★★★★)
George Eliot, Reino Unido, 1859 / Grua Livros
Grande exemplo do formalismo virtuoso que ditava grande parte da produção literária vitoriana, O véu erguido é uma obra "menor" de George Eliot, mas a sua brevidade e assepsia fazem com que ela se torne ainda mais interessante. Aparentemente único momento em que a autora (que trabalhava sob um pseudônimo masculino para ter alguma chance no mercado machista da época) lidou com questões sobrenaturais, acho curioso que até hoje quase não se façam leituras sobre a óbvia veia homoafetiva da narrativa, acompanhando um rapaz de "frágil beleza feminina" que se vê acometido por perturbadores episódios de clarividência. Me parece que Henry James leu muito de George Eliot antes de escrever A Volta do Parafuso e, especialmente, A Fera na Selva. Em ambos os casos é possível encontrar um pesar muito grande pela consciência daquilo que se aproxima, um depósito de esperança/temor pelo futuro, o mais básico e humano receio daquilo que é novo. De qualquer forma sinto que não compreendi nem 10%, queria muito ouvir uma aula sobre.

Closer (★★★★)
Patrick Marber, Reino Unido, 1997 / Grove Press
Mais famoso pelo filme homônimo, também roteirizado por Marber, Closer é um grande exemplo não apenas de teatro noventista, mas do vigor da linguagem como um todo. Muito mais ácida e cortante que seu par cinematográfico, provavelmente pela necessidade de tempos e intenções muito calculadas para engrenar, a peça tem a rara habilidade de funcionar no papel, tão perfeita e minuciosa é sua blocagem de ideias e sentimentos. Há quem leia essa eterna corrida em torno do próprio rabo que é a classe média se digladiando por conta de monogamia como um tema morto e cansado, mas talvez seja esse mesmo o ponto. A monogamia é chata, e no fundo todo mundo sabe.