tudo pode ser roubado


Não há nada de particularmente surpreendente neste romance de estreia da curitibana Giovana Madalosso. A Teta Racional, seleta de contos lançada anteriormente pela autora, trilhava exatamente o mesmo caminho, nada de surpreendente a ser notado. É um trunfo, apesar de soar como uma crítica um tanto ácida. Giovana não é (ou não parece ser, até agora) uma escritora afeita a malabarismos e pirotecnias narrativas tendendo a se concentrar no unitário da coisa, no personagem, no arco, no atravessamento. Consequentemente, Tudo pode ser roubado é um livro sobre a juventude-de-nossos-tempos sem a afetação trágica que se espera ao falar dela, é um livro sobre a cidade de São Paulo que coloca a beleza violenta do lugar longe do etéreo e impalpável, é um livro de golpe que trabalha com registros possíveis, ao mesmo tempo que não fecha as portas para as inflexões mais criativas (onde estaria a polícia nesse mundo onde quase tudo é permitido?).

Os roubos perpetrados pela protagonista, mais que cenas divertidas de um clichê de crime visto de um ponto de vista desglamourizado, são polaroides dessa vida urbana, urgente, que muito tem como feia, mas que também pode ser um grande playground de possibilidades. Me parece que, ainda imperfeita, Madalosso trabalha num registro algo alienígena na contemporânea literatura brasileira. Distante da pompa existencial (e invariavelmente masculina) que tem regido os "grandes lançamentos" dos últimos dez ou quinze anos, ela surge interessada nas minucias e arestas de um drama possível, prático, uma discussão pueril, e por fim tão profunda, se o tempo de pensar a sério no papel do amor em nossas vidas já chegou, se é preciso que chegue. Dito isso, este não deixa de ser um livro-sobre-literatura e seu poder transformador, o que me deixa fazendo votos que seu próximo lançamento não seja sobre um escritor em crise e toda essa ladainha já tão conhecida. Seria uma grande perda.

Tudo pode ser roubado (★★★)
Giovana Madalosso, Brasil, 2018 / Todavia