líquido ou o homem que nasceu amanhã


Há quem argumente que todo compositor é essencialmente um poeta, o que tendo a discordar. A composição musical me soa como um arte própria, prima-irmã da poesia mas com códigos todos seus. Logo, nem todo bom poeta será um bom compositor, vice e versa. Não acompanho Tibério Azul mas guardo com algum carinho as memórias de seu trabalho na Mula Manca. Não sabia que Tibério Azul era poeta. Nem todo poeta é poeta. Líquido, o livro, é o complemento para Líquido, seu segundo disco, que não ouvi. Líquido, o livro, é um breve devaneio em questões de terra natal, avenidas da cidade-mãe, rios do Recife, o que exatamente compreende um homem feito nesse lugar, o que ele recolhe enquanto caminha por outras paragens, o que traz de volta? Parecem (e são) questões muito caras e geração de Tibério, que precisou, com algum pesar, deixar seu berço para conquistar alguma coisa, mas nem todo poeta é poeta (ainda que todos sejam). "se fosse um sujeito diluído/caminho de irrigação para ideias folgadas/não estaria com os pés para cima sacanendo o poema/feito fazia com os peixes nos corais de gaibu", é isso é tudo, aluém diria. Que o poema é a imagem da imagem, a memória da memória, e é falha também, é passar a perna no todo da regra. Mas discordo, nem todo poeta é poeta e nem sempre o poema é passar a perna. "ninguém foi mais recife do que eu/a alma encharcada pelas águas/as tardes afogadas pelos prédios"(...)"isso diz tudo", mas não diz, porque nem todo ritmo de falar é ritmo de falar.

Líquido ou o homem que nasceu amanhã (★★)
Tibério Azul, Brasil, 2017 / Confraria do Vento