o espírito dos meus pais continua a subir na chuva


Boa parte das "autoficções" latinoamericanas surgidas na última década que tocam nas questões ainda pungentes das violentas ditaduras que assolaram o continente convergem parecem convergir numa mesma intenção, num mesmo desejo de compreender como o pais em que vivem atualmente conseguiu atravessar porções tão tenebrosas de história, e o que exatamente restou desse processo. Não raro são livros focados em questões familiares, um pai desaparecido, um irmão suicida, uma tia militante, uma seio familiar apolítico e amedrontado, mas sempre há aí esse desejo de investigar, mais afetiva que praticamente, esses percursos. Patricio Pron, no entanto, trabalha com duas práticas desviantes em seu fantástico O espírito dos meus pais continua a subir na chuva. A primeira delas é que esse processo investigativo é factual, e não habita apenas os caminhos da memória. Focado num autor que retorna a sua Argentina natal em função da doença que vitima o pai, depois de longos anos na Alemanha, Pron inscreve o livro numa trama de jornalismo investigativo tão econômica quanto possível.

Ao encontrar nos pertences do pai um punhado de recortes de jornal sobre o assassinato de um homem aparentemente banal na vida daquela cidade interiorana, o protagonista se insere nesse lugar da busca, da memória, da remontagem histórica que busca fazer justiça a importância de suas figuras. O segundo e mais interessante desvio é a compreensão muito prematura de que a literatura não pode comportar a complexidade dessa narrativa, e essa investigação está fatalmente fadada ao fracasso, e daí surge a estrutura radical proposta pelo autor. O espírito dos meus pais é um romance que se nega a sê-lo, que toma caminhos duros, secos, que observa a memória de uma juventude militante e violentada com pouco ou nenhum brilho, e não é exatamente otimista quanto aos desdobramentos de sua luta na atual sociedade. Como bem diz o autor, "confrontar o passado se torna peremptório na Argentina, não apenas em nome desse passado, como também para compreender o presente."

O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva (★★★★)
Patricio Pron, Argentina, 2011 / Todavia