setembro 18


atraso (mas nem tanto)
tentava cortar de colher
o pão mas tudo na vida
pode ser reviravolta e
estava mergulhado em
sopa é a informação que
escolhi omitir me atraso
(mas nem tanto) volto a
caminhar com dois pés
volto a não desperdiçar
as horas para as doze
faltam três

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CINEMA

Christopher Robin (★★★)
Marc Forster, Estados Unidos, 2018
Não vou mentir que fiquei impressionado em como, por cima de todo o didatismo, melodrama mal empregado, e trilha sonora ridiculamente insistente tem ali um filme relativamente ousado para seu nicho. Cinema infantil, se assim podemos chamá-lo, que não descamba para a total histeria é algo bem raro de se ver nesses tempos. E o roteiro é de Alex Ross Perry; logo, me ganha fácil.

Tipo Sangue (★★★)
Lucas Fratini, Brasil, 2017
Curtas que tem consciência da própria duração e a utilizam da maneira mais interessante: contando uma fatia de história. Amo. Mas ainda amo mais o primeiro curta do Lucas, "A pequena bailarina de 14 anos". Acho que longe da rigidez do cinema de gênero (e dentro desse o cânone tão mais específico do cinema de vampiros), ou conectando esse rigor a um interesse muito profundo e pessoal pelo personagem, seu drama íntimo, suas ocupações de espaço, o cinema dele tem muito a ganhar. No mais, que imagens. Filmar o escuro é sempre um exercício ingrato.

O Animal Cordial (★★★½)
Gabriela Amaral Almeida, Brasil, 2018
Ainda hoje eu lembro com clareza da sessão de A Mão que Afaga, primeiro ou um dos primeiros curtas da Gabriela. Como cabia tanto peso, e tanta atmosfera num filme só, nunca saberei. Está no meu cânone de filme a serem desavergonhadamente roubados, caso necessário. Só não dá pra roubar o rosto de Luciana Paes, que é o que eu queria assaltar de verdade. Dia desses, esqueci quem, fez um texto sobre o Animal Cordial que era na verdade uma ode ao rosto da Luciana. Não discordo. Que o filme é um retrato sangrento, divertido, histérico, da sociedade brasileira e suas figurinhas é sabido, é bem sabido. Mas é importante entender como se movimenta o rosto de uma atriz. Um fantasma no fundo do quadro, um bicho carniceiro, essa Sara. Incompleta e desagradável, mas ela mesma, até que enfim sem perdão. Originalmente esse texto caminharia para o teatro e hoje, na terceira revisão, só reitero o sonho de um dia ver Sara, louca e ensanguentada, em algum palco por aí.

Entremarés (★★½)
Anna Andrade, Brasil, 2018
Não tenho nenhuma opinião específica e particularmente embasada no que diz respeito as éticas do documentário, mas gosto muito de exemplares que respeitam (na medida do possível) o espaço que invadem, sobretudo quando se tratam de espaços periféricos, etc. Entremarés acata muito bem essa questão do respeito com suas entrevistadas, com oferecer-lhes a possibilidade da fala, do entoar da própria história. O que me incomoda talvez é o engessamento estético. Num lugar tão visualmente estranho/bonito/impactante como a Ilha de Deus, formatar um documentário a partir de entrevistas tradicionais, ainda que alinhavando essas abordagens com uma ideia mais contemporânea e observacional, me parece um pouco de desperdício, cansa a potência do espaço e das personagens. Como evoca o título, o filme acompanha a vida de três moradoras da Ilha que trabalham com pesca, e portanto estão a mercê dos movimentos do mar. Talvez fosse o caso de aplicar essa ideia de uma natureza cíclica, contínua, viciosa, também às opções estéticas, e não apenas deixar que a história oral a evidencie. No mais, há de se lembrar que é um primeiro filme e mesmo assim o talento para a entrevista, para extrair das pessoas a sua visão de mundo, já parece muito apurado.

Café com Canela (★★½)
Ary Rosa e Glenda Nicácio, Brasil, 2018

As Herdeiras (★★★★)
Marcelo Martinessi, Paraguai, 2018
Eu quero mais filmes morosos, sufocantes, calorentos, com lésbicas de meia-idade colocando na balança seus comodismos, e inseguranças, e desejos reprimidos e decidindo o que fazer quanto a essas questões. Vai ter quem chame de cinema-de-arte-lento-e-estereotipado, e talvez seja, mas e daí? Manda mais.

Camocim (★★★★)
Quentin Delaroche, Brasil, 2018

Abrindo o Armário (★★★)
Dario Menezes e Luís Abramo, Brasil, 2018

The Rocky Horror Picture Show (★★★★½)
Jim Sharman, Reino Unido/Estados Unidos, 1975
Toda vez que vou rever faço o exercício de apagar o ato final da cabeça só pra chorar com "I'm Going Home" como se fosse a primeira vez.

O Banquete (★★)
Daniela Thomas, Brasil, 2018
Quanto mais se aproxima do final e se assume absolutamente porra louca, perverso, doido varrido, fica mais divertido. Mas antes disso é um tempão de classe-média-sofre indeciso sobre as próprias escolhas estéticas e narrativas. No mais, divertido que apesar de querer muito ser uma alegoria política é um filme sobre como o diretora da Folha de SP era mulherengo e bunda mole.

Yonlu (★★)
Hique Montanari, Brasil, 2018
Sempre me emociona e decepciona em partes iguais.

Estamos todos aqui (★★★½)
Rafael Mellim e Chico Santos, Brasil, 2017
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LITERATURA

Abril Despedaçado (★★★)
Ismail Kadaré, Albânia, 1978 / Companhia das Letras

Ladainha (★★★)
Bruna Beber, Brasil, 2017 / Record

enquanto os dentes (★★★★)
Carlos Eduardo Pereira, Brasil, 2017 / Todavia

Vestígios da Senhorita B. (★★)
Renata Belmonte, Brasil, 2009 / P55 Editora
Não é raro se perceber, em escritos de autores iniciantes ou "em treinamento", os caminhos e processos da reverência por eles despendida a seus ídolos e referências. Renata Belmonte, por exemplo, compila neste 'Senhorita B.' um coro de vozes vindas de uma mesma personagem, talvez a própria autora, que em muito devem ao furor apaixonado e virulento de uma Hilda Hilst. Brevíssima em duração porém muito ousada em intenção, Belmonte faz de seu livro um mosaico sobre os pontos-chave da vida e da construção da identidade dessa personagem ferida, escritora, bela, maldita, mulher, processo esse que soa um tanto afetado por uma possível falta de maturidade estética, quando da composição. É interessante também a proposta quase lúdica da edição, onde imagem, formatação, tipografia e ilustração convergem para colaborar com a narrativa, não soando como meros artifícios. Me parece que a autora baiana lança em breve um novo romance e espero que agora, quase dez anos longe desse primeiro respiro da Senhorita B., as referências tenham sido domadas, e a poética feroz da sua voz consiga surgir menos sufocada.

Política (★★)
Adam Thirlwell, Reino Unido, 2004 / Companhia das Letras

Poemas (★★★)
Fernanda Morse, Brasil, 2014 / Cozinha Experimental
A Fernanda Morse me lembrou dos resistores da Marília Garcia. A Marília fez um teste de resistores e inventou o cinema no mesmo ano em que a Fernanda Morse foi assistir a um filme, esticou o filme pra conseguir atravessar frame a frame, pensou em 'como se reinventa a palavra da imagem', e escreveu. Essa poesia que não tão afetuosa, nada tétrica, pouco sentimental, mais ou menos distante, um copo meio cheio, mais ou menos cheio. Um copo mais ou menos cheio de Cortázar (e Garcia). Nós poetas temos todos o mesmo sofrer (que festejamos), o que variam são os índices. Os índices da Fernanda Morse nessa primeira seleta são aqueles que movem os poetas: o amar, o amor, o vento na cidade, o exercício exaustivo que testa a maleabilidade sintática, "Ela tem a dinâmica dos furacões / quando se estende pela noite / e recrudesce." É essa mesma, a poesia horizontal (de horizonte), a poesia cinematográfica (de imagem), que testa os resistores (da Marília) da Fernanda.

Cantiga de Findar (★★★★)
Julián Herbert, México, 2011 / Rocco

Sinuca embaixo d'água (★★★)
Carol Bensimon, Brasil, 2009 / Companhia das Letras
Há muito ensaiava um melhor contato com os escritor da Carol Bensimon. Gosto dela. Do que pensa por aí. Do que posta no Instagram. A capa de seu último livro é muito boa. Pensei em ler suas coisas em ordem cronológica mas não deu porque na vida nem tudo dá. Em Sinuca embaixo d'água as coisas também não deram porque na vida nem tudo dá. Lá pela metade do livro fiquei com muita vontade de transportar os monólogos febris/estóicos dos personagens para um palco de teatro; há muito de performático, expansivo, grandioso, para se investigar ali. De uma maneira mais adulta, ou séria, a história de Sinuca (observações de pontos de vista distintos sobre como a morte de uma garota impacta aquele microcosmo, aquelas pessoas, aquela cidade) me remeteu às Luzes de Emergência da Luisa Geisler. É a novidade do trágico que inflige esse pesar, esse ebril, mas tamém essa consciência elevada, de certa forma, para pessoas que de outra forma não pensariam tão fundo em suas próprias questões, ou não as colocariam em perspectiva. No mais, me intriga o motivo de todos, ou a maioria dos personagens terem vozes tão próximas em tom e estilo. Mas aí são outras discussões.

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TEATRO

Dinamarca (★★★★)
Grupo Magiluth, Brasil, 2017