nenhum mistério


Paulo Henriques Britto segue com o projeto estranhíssimo de fazer com que os títulos de seus livros de fato comentem, sintetizem, acompanhem a intenção dos poemas ali contidos. Formalmente, como poucos poetas fazem. Nenhum Mistério é uma conversa bastante objetiva com Formas do Nada, volume anterior. Não há outro combustível para a vida, se não o acaso. A vida, que não pode ser festejada, mas usufruida com moderação, considerando sempre os seus apesares, é observada por Paulo na encruzilhada onde o formalismo de rimas se encontra com o contemporâneo de febres. Um livro onde o hedonismo morreu e agora o único assunto possível é o vazio. O conjunto vazio, o que nasce no vácuo, que relações são possíveis no espaço, onde não há som? Apesar de soar quase como destacado do mundo em que vivemos, Nenhum Mistério é talvez dos mais cruéis livros a surgir nesse ano, e dos mais radicais exercícios poéticos em pessimismo, alimentado de estagnação. Diz: "Toda forma é perfeita: não só a esfera, / que é só mais redonda que as outras — nada / de mais." E diz também: "E todas as proposições / são verdadeiras — se tornam verdade / no instante exato em que são formuladas. / Ficam sem efeito as contradições / todas. (Pronto. Creia. Não faça alarde.)" Não é, mas reverbera como derrota, ou como a apatia antes da reorganização.

Nenhum Mistério (★★★★)
Paulo Henriques Britto, Brasil, 2018 / Companhia das Letras