política


É muitíssimo curiosa a experiência de pegar um livro escrito num passado recente e perceber muito claramente as notas e engrenagens de uma sociedade parecida com a atual mas já tão distante. Adam Thirlwell, por exemplo, compôs este romance bastante explícito sobre a política (a-ha) e a ética que dizem respeito a um relacionamento a três -aqui um homem e duas mulheres-, como se isto fosse a mais esperta, ousada e inovadora abordagem sobre sexo que a literatura já viu. Dado o sucesso que atingiu quando do lançamento, é possível que boa parte do público realmente tenha levado a sério as digressões espertinhas e ácidas do narrador, que a todo momento opina sobre os destinos das personagens e as alinha com personagens históricos como Mao e Stálin, secreta ou notoriamente perversos. Thirlwell era, e hoje é possível ver com maior clareza, a deliciosa caricatura do escritor-revelação-dos-anos-2000: desbocado, por vezes metalinguístico, machista porém escorado na desculpa do bom humor, e principalmente muitíssimo apaixonado pela própria obra, apesar de disfarçar isso com uma dose de autocrítica.

Não é raro encontrar, ao longo de Política, comentários sobre as inadequações morais ou estilísticas de Sade, Kundera, Bulgákov, entre outros. Numa entrevista concedida à época do lançamento, o autor comenta diz: "Tento não ler autores jovens. Prefiro os mortos, com os quais não estou competindo." Parece explicar algumas coisas. Tudo isto considerado, é impossível negar que em seu nível mais elementar, aquele que diz respeito a personagens e suas motivações, Thirlwell consegue ser quase eficiente. O violentamente burguês drama de Nana, Moshe e Anjali consegue sim ser divertido, e por vezes através de um humor crasso, escatológico, distante do tão famoso refinamento da comédia inglesa. Se o próprio autor calasse um pouco a boca, seus personagens só teriam a ganhar. Trivia aleatória: Política foi uma das inspirações de Christophe Honoré para criar Canções de Amor; o livro inclusive aparece no filme e tem um de seus diálogos totalmente replicado. Talvez me faça gostar menos do filme.

Política (★★)
Adam Thirlwell, Reino Unido, 2004 / Companhia das Letras