ladainha


Acho fascinante o insucesso em agarrar um autor ou obra do jeito que se pretendia. E digo isso sobretudo pensando em como é interessante, ainda que conturbada, a relação com uma obra que você tenta delinear sobre os mais variados aspectos e nenhum deles parece particularmente apropriado. E aí Bruna Beber, por exemplo. Rua da Padaria, meu primeiro e até então único contato com sua poesia, tinha o interesse quase lúdico pela mecânica das coisas vistas e a física das coisas sentidas que tanto movem uma Matilde Campilho ou uma Ana Martins Marques, mas talvez levasse esse lúdico a um espaço que não é nem o da brincadeira (ou da palavra brincante) nem o da experiência. Em resumo, ainda que não desgostasse, Rua da Padaria me parecia obra de uma poeta presa no limbo entre a pesquisa de sua linguagem e o devaneio juvenil (nada contra este) não tão inspirado. Não sabia ao certo como agarrá-lo, como lê-lo.

É curioso que, ao começar a leitura de Ladainha, eu acreditasse erroneamente que este havia sido lançado antes de Rua da Padaria, ou seja, fosse um trabalho ainda menos maduro. Talvez daí mais uma dificuldade de compreensão. Ladainha se afasta lenta mas firmemente das imagens palpáveis e afetivas do trabalho anterior, e a poeta se oferece um pouco menos otimista, os palácios de sua memória francamente abalados, se não em ruínas, e a percepção do mundo apontada para microcosmos, sobretudo os naturais, sobretudo os que oferecem algo de opositor, difícil. O exercício da ladainha do título -uma prece agoniada ou uma enumeração frenética de elementos- surge na busca por um questionamento pessoal; não uma pergunta já existente, mas o desejo de inquirir-se no que há de mais elementar.

Talvez seja sobretudo o caráter rítmico e por vezes aliterativo da poesia de Beber que renda a sensação de estarmos ouvindo os processos de livre-associação de uma criança, que vê o mundo pela primeira vez e tenta aplicar sentido àquilo de acordo com sua bagagem. Em Ladainha esta criança soa como aprisionada no corpo de alguém cujas utopias já cederam e por meio dessa enumeração febril, remonta o mundo como o conhece. Ao dizer que "Todo poema carrega um rosto/e nele um susto que nunca passou" Bruna se rende à vontade de encerrar nessa entidade fundamental, disposta no livro de uma forma concreta mesmo quando não o é, os mistérios que não consegue nem tem pretensão de compreender, mas talvez seja esse o grande jogo de sua poesia: a liberdade da incompreensão.


7.

A cabeça mói
é dia corrido
na região do pescoço

Uma gota toca
o primeiro dente
no pingente do cordão

E cai a boca (cheia de terra)
o reboco (nuvens de vão)
o susto (é de madeira)

Quem já fez
de uma pedreira
seu beliche

Não tem medo de veneno
não tem medo de viagem
come o esqueleto da maçã.


Ladainha (★★★)
Bruna Beber, Brasil, 2017 / Record