enquanto os dentes


Assim mesmo, sem letras maiúsculas: enquanto os dentes. Todas as potências maiúsculas da vida do protagonista dessa estreia de Carlos Eduardo Pereira ficaram no passado como promessas. Agora cadeirante, para além dos rótulos de gay, negro, diferente, que o ambiente passou a vida lhe sugerindo não serem características a celebrar, Antônio se vê preso a um movimento de retorno que é tão físico, com sua peregrinação marcada por uma travessia na barca Rio-Niterói, quanto memorial, com as lembranças de momentos definitivos de sua pequena existência se aglutinando à paisagem dessa breve, porém exaustiva, viagem. Talvez pela leitura recente, o ritmo constante e a estrutura fragmentada que Pereira usa para moldar essa torrente de recordações agridoces me remeteu muito ao Suicide, de Edouard Levé. Ainda que seu protagonista não esteja morto como aquele do francês, existe muito marcada a eminência do fim, a percepção clara e desassombrada que a vida, como conhecida, está em processo de findar.

Não pretendia, por nenhum motivo específico, tecer maiores comentários sobre essa leitura até topar com um texto do crítico Eder Alex intitulado "‘Enquanto os dentes’ e a muleta da representatividade". Partindo do princípio (correto) que as histórias da contemporânea literatura brasileira revolvem majoritariamente em torno de personagens cis-homens, brancos, héteros, e não raro escritores em crise com a própria arte, Alex enquadra o livro de Pereira num limbo entre a bem-vinda mudança de protagonismo (ainda que, segundo sua visão, os temas do artista frustrado continuem em voga) e o entrincheiramento, na "muleta da representatividade", de uma literatura não particularmente inspirada. Em dado momento, o texto questiona o livro por ser "bem escrito, com um personagem interessante e… só" e daí surge a minha inquietação: não é suficiente? No meio do cinema, onde circulo com mais frequência, não é raro um filme receber alguma crítica infundada por ser "parado" ou "lento", o que me parece o caso aqui. enquanto os dentes é como cinema de fluxo. A dilatação temporal daquilo que soa como obviedade (o fato de Antônio perder trabalhos e "ver o tudo de baixo" a partir do acidente, por exemplo) é na realidade um exame muito dolorido e persistente dessa outra forma de vida.

Posso concordar com a ideia de que a autoficção, ou a corrente tendência de escrever livros tendo como base primordial a própria vivência, pode ser algo limitadora, sobretudo quando se torna último recurso de um texto que não encontra sua verdadeira pulsão. Mas seria possível definir enquanto os dentes como autoficção apenas porque autor e personagem são negros e cadeirantes? E ainda nesta linha de raciocínio, pensando no livro acabado e no retrato que ele pinta, seria possível diminuí-lo por surgir de onde surgir ou isso seria apenas o ato de negar a vida por trás da trama como potencialmente interessante? Parecem, e são, questões mínimas. É mais interessante, por exemplo, pensar no olhar que se lança aqui sobre a ideia de movimento. Assim como no livro de Levé (e assim como naquele, muito me remetendo a Perec), existe uma poética nas ladainhas que o narrador usa para enumerar as questões de Antônio. Descrições furiosas dos ataques de bullying vividos na escola naval para onde foi forçado pelo pai militar, o dia-a-dia sufocante e milimetricamente controlado da mãe religiosa, as inúmeras experiências que viveu ao entrar na faculdade e se envolver com as artes mas sobretudo, no agora que conduz a narrativa, as paisagens da cidade como totens, como um playground onde talvez suas pernas não possam mais correr mas sua mente preenche e ressignifica livremente. E sem necessidade de muletas.

enquanto os dentes (★★★★)
Carlos Eduardo Pereira, Brasil, 2017 / Todavia