ensaio para pastel e espectador


Remeti a essa fala ontem, na saída do teatro, discutindo brevemente com os amigos: não gostava de teatro porque não aguentava o peso da mentira, o olhar nos olhos daquele ator e saber que ele mentia pra mim com uma convicção apaixonada, sem a mediação de uma tela, uma página, uma pincelada. O teatro teria que ser ingênuo ou não ser, que escolha. Essa barreira ruiu há muito, provavelmente quando me meti numa apaixonantemente conturbada relação com atores. Sou seu maior fã, e portanto não os compreendo. Desci do ônibus hoje na parada onde geralmente desço, um pouco afastada de minha casa, e descobri que acontece até sábado uma festa no bairro, uma festa de bairro, portanto. Roda-gigante e mais alguns poucos brinquedos, barracas de tiro, barracas de aposta, maçã do amor. Comi um pastel e lembrei que em espanhol pastel é bolo. De que isso importa quando o mundo acaba? Pergunto: de que adianta narrar o apocalipse se ao fim do discurso a plateia já terá sido pulverizada? Não tenho nenhuma resposta de fato, mas Álamo me inquiriu: Tu vai escrever sobre Dinamarca? Vi pela segunda vez. Na primeira pensei que sim, esse é um espetáculo do Magiluth: O fragmentado, o violento, o corpo como senhor do tempo e do espaço, o energético, o ritmado. E não esquecer das valas e correntezas do contemporâneo: O ator pede mais reverb no microfone para potencializar uma presença fantasmagórica. Pode, porquê não? Na segunda vez consegui acessar a Dinamarca, voar até ela num avião capenga, baqueado pelo calor dos trópicos. O ritual de evocação de um momento hygge consiste de colocar a venda da mentira nos olhos e dançar um haka neozelandês, porque há muita beleza em perverter a masculinidade de dentro para fora. Meu pastel consistia de carne, frango, queijo, um ovo de codorna, verduras variadas, milho e ervilha. Comi, não sem algum pesar pelo óleo desnecessariamente injetado no sistema, mas me pareceu impossível não emergia naquele ambiente iridescente, não ser um de seus atores, não mergulhar na festa. Porque atores; eu os amo como a mãe ama o filho que não agradece a boa criação recebida quando se forma na faculdade. Quando na Dinamarca, ouvindo os jogadores do reino bradarem com orgulho os seus cabelos ruivos, olhos claros, pele branca, suportes naturais, economia sustentável, e sobretudo empatia para com aqueles mais necessitados, uma moça do meu lado reclamava para sua colega: 'como pode falar um negócio desse?' O teatro deveria ser menos ingênuo? Dinamarca é teatral em seu festejo do privilegiado, e talvez mais teatral ainda em usar Hamlet para fabular sobre a derrocada desse privilégio arrogante e sanguinário. Narra o apocalipse e estão ali todos vivos depois para debater o privilégio que é poder acompanhar sua própria pulverização, pessoa que paga caro por uma tacinha de champanhe, não há ingenuidade nisso. Fiz esse trajeto para casa com o peso de um pastel no estômago, calculando quanto tempo até ser atacado por um possível refluxo. "Que farei quando tudo arde?" dizem Sá Miranda e Lobo Antunes em referência que nada colabora para esse texto, mas comigo colabora pelo prazer de lembrá-los. Lucas Torres, na primeira cena de Dinamarca, vira dois litros de cerveja (a saber, a Heineken vem de Amsterdã) e fala um tanto de coisas. Confesso que esqueci de boa parte delas mas lembro da pose empregada para beber. As garrafas em posição vertical, quase uma espada prestes a descer-lhe a garganta. É como falar de política (e falam). E tudo e todos se registram, e uma música mascara o cheiro de podre, a a rainha grita que nenhum deles sabe o que é ser mulher. Bruno Parmera desvia de um jogo que atinge Giordano Castro que diz eu? mas eu nem estava nessa! tudo bem agora vou entrar (a mim, Tina Fey ensinou que a primeira regra do improviso é nunca dizer não). Teatro performativo, dizem. Não seriam todos? É uma pergunta genuína, de teatro eu não entendo nada, só que no melhor dos casos não há mentira nem ingenuidade. Nem pastel, de preferência, que o cheiro de gordura seria infernal.

Dinamarca (★★★★)
Grupo Magiluth, Brasil, 2017