cantiga de findar


Sempre que leio um livro que se identifica (ou simplesmente não pode fugir desta identificação) como auto-ficção, me revolvo nas mesmas questões do porquê e como partilhar a experiência física com a experimentação criativa, mas aí chega uma leitura como Cantiga de Findar e aponta essa ideias para um lugar diverso, ainda que óbvio: qual é o verdadeiro combustível da narrativa, se não aquele adquirido pela experiência e pelo experimento? Julían Herbert conta a história de um filho que conta a história da mãe, Guadalupe, ou Marisela, ou Vicky, prostituta de vida sofrida que agora sucumbe a uma leucemia. Com Guadalupe, sucumbe também uma experiência de mundo que consegue ser retratada apenas em pinceladas, firmes mas breves, ou seja, Guadalupe está fadada a desaparecer. E com Guadalupe não desaparece apenas esse traço de afeto e imoralidade que o filho-biógrafo se via obrigado a administrar ao longo de uma conturbada existência, mas desaparece também uma experiência de país, um México não melhor ou pior que o atual, mas filtrado de maneira diferente, por uma sociedade diferente.

O que é então essa narrativa, aparentemente escrava da experiência, se não uma tentativa muito radical e inconclusiva de compreender, através do particular, o que é esse todo em que vivemos e continuaremos a viver. O prefácio de Gustavo Pacheco para esta edição da Rocco é certeiro em posicionar Cantiga de Findar junto a Formas de voltar para casa, do chileno Alejandro Zambra, e O espírito dos meus pais continua a subir na chuva, do argentino Patricio Pron; aos quais eu adicionaria A Resistência, do brasileiro Julián Fuks. Há uma infinidade de mães, e pais, e existências prostituídas na recente história da América Latina, e talvez a única maneira de conseguir olhá-las de frente seja a mentira com convicção de verdade. “Wilde considerava que escrever autobiograficamente reduz a experiência estética. Não concordo: apenas a proximidade e a impureza de ambas áreas podem criar sentido.”

Cantiga de Findar (★★★★)
Julián Herbert, México, 2011 / Rocco