camocim


Me soa muito curiosa certa resistência que o público "esclarecido" tem com este Camocim, de Quentin Delaroche. A tônica do enfrentamento é quase sempre a mesma, e atravessa a ideia de que um documentário interessado num cenário tão específico (ao mesmo tempo que universal) e efervescente como a política totalitária e violenta do interior brasileiro não pode se dar ao luxo de ser puramente observacional, pausado, distante. Não sei se concordo com essa abordagem, mas antes disso não sei se é totalmente possível encaixar o documentário nesse nicho com tanta precisão. Numa cidade como Camocim de São Félix o tempo passa de uma forma outra, que não a da capital; não há demérito em evidenciar essa dilatação temporal.

Ao reformatar o filme e transformá-lo quase que totalmente num diário da vida de Mayara, jovem que coordena a campanha de seu colega César para um posto de vereador, Delaroche está sim ocupando um espaço, delineando um posicionamento, e "filmando o inimigo", como propunha Comolli. A visão idealista, quase utópica, de Mayara para com o microcosmo político de sua região, e seu conseguinte vigor para angariar aliados nesse sonho, fornece àquelas imagens uma camada além da pura experiência de fluxo. Me parece que o mero descrever dos passos firmes da jovem, negra, lésbica, filha de mãe evangélica e irmã de um então presidiário, é a observação poderosa de um processo político ativo em curso, um processo de revolta que tenta agir de dentro para fora - e que eventualmente será bem-sucedido.

Camocim (★★★★)
Quentin Delaroche, Brasil, 2018