abril despedaçado


O estilo puro e simples não é, ou não deveria ser, um pilar único e sacramental na hora de pensar um texto. No entanto, com isto considerado, esta leitura de Abril Despedaçado me foi enervante como poucas nos últimos tempos. Fui atraído para o livro de Kadaré por conta da remota memória de ter gostado bastante da adaptação cinematográfica de Walter Salles, e por conta do meu corrente projeto de leitura mundial. A trama, que tem como protagonista nenhum personagem em específico mas o impacto que o Kanun, código moral e sanguinário das montanhas albanesas, tem na vida daquelas pessoas, exalava algo de antropologicamente curioso, e por mais que o seja de fato, esbarro no estilo. Não sei ao certo se estamos falando de uma perda na tradução, mas a construção textual de Kadaré, repleta de repetições, reafirmações, reiterações do mesmo tópico, não soa nada hipnótico como alguém poderia alegar, mas apenas prolixo e cansativo.

Por exemplo; o primeiro capítulo, onde conhecemos o drama do montanhês Gjorg Berisha, marcado para morrer dali a um mês por conta do ciclo de vinganças do Kanun, é de uma beleza e um mergulho únicos na vida austera que se leva naquela região tão afastada, até o ponto em que passa a repetir de tantas formas quanto possíveis os mesmos pormenores que regem a vida do rapaz: o trágico da situação, o mês que lhe falta, como esse sistema é aleatório e incompreensível para quem o olha de fora. Talvez Kadaré esteja tentando evidenciar como é sufocante este sistema, que nos capítulos seguinte vai tragar de formas variadas pessoas tão diversas quanto um escritor da capital do país e sua esposa ou um agrimensor alcoólatra, mas talvez um pouco de economia conduzisse ao mesmo lugar.

Abril Despedaçado é daquelas construções muito interessantes que se revelam de fato nas últimas páginas, talvez nas últimas linhas. O vigor da sobreposição de linhas narrativas que acontece com mais urgência no último capítulo é sem dúvida das coisas mais asfixiantes que já li, seria melhor se já não estivesse cansado.

Abril Despedaçado (★★★)
Ismail Kadaré, Albânia, 1978 / Companhia das Letras