sabrina


A última vez que a imprensa esteve tão apaixonada e categórica quanto ao caráter analítico de um livro para com os nossos tempos foi quando Jonathan Franzen lançou seu Liberdade, em idos de 2010. Quase uma década depois, as bases das inúmeras perversidades que conduzem a sociedade americana podem ser as mesmas, mas seus resultados encontraram outras desembocaduras. Talvez por isso a comoção em torno de Sabrina, segundo livro do quadrinista Nick Drnaso. De alguma forma, Sabrina me remete muito mais ao Elefante de Gus Van Sant do que às questões da infeliz família Berglund. Não apenas por conta de sua arte minimalista, estéril, formal, cheia de perspectivas pontuais e profundas, mas porque assim como Van Sant examinava, a partir de um microcosmo, as mortais deficiências de um país que permite a existência de algo como o massacre de Columbine.

Com efeito, se Drnaso buscava radiografar a falência perversa da sociedade que habita, o melodrama -ou o drama familiar, que seja- não seria o caminho mais apropriado. As ideias que movem a narrativa norte-americana mudaram completamente depois das Torres Gêmeas ou da Guerra do Iraque; a individualização completa tornou-se praticamente. Quando fala sobre um cruel congelamento emocional ou sobre a falta de respostas concretas para perguntas que em sua essência soam bastante simples, Sabrina não fala sobre nenhum de seus personagens em particular, mas daquilo que moldou todos eles.

Nas primeiras páginas do álbum, Sabrina é uma pessoa que fala, anda, e tem desejos muito específicos, como viajar de moto numa aventura irresponsável. Através de um diálogo realisticamente fragmentado que ela tece com a irmã, entendemos um pouco sobre seu espírito livre e porque isso incutiria medidas iguais de medo e admiração em seus próximos. Esse início tão breve é particularmente importante para que se entenda o impacto sofrido por Teddy, seu então namorado, ao ouvir um radialista sensacionalista dizer que o assassinato de Sabrina, ato capturado em vídeo pelo seu algoz e eventualmente exposto na internet, é apenas uma conspiração governamental para retirar o foco dos reais problemas e manter a população sob controle.

Ainda que o real protagonista da trama seja Calvin Wrobel, militar especializado em defesa virtual que aceita cuidar de Teddy enquanto o rapaz sofre de um compreensível desarranjo mental, Drnaso é muito claro em seus desejos de pulverizar o impacto do crime em todos aqueles minimamente conectados a ele. Viajando por espaços como o Museu do 11 de Setembro, os comentários de um vídeo no YouTube, ou mesmo uma partida de Call of Duty entre colegas de trabalho, todos os personagens de Sabrina são tragados para a histeria e fetichismo midiático que são marca de nossos tempos. Mesmo sendo bastante discreto quanto a inflexões políticas, não há como esta não ser uma história sobre a "América de Trump".

Felizmente, o autor não pretende duplicar os anônimos que povoam a internet. Sabrina está mais para um recorte jornalístico sobre um projeto social implodido por questões tão primordiais como falta de empatia ou educação básica que para um relato pessimista e amargo de como estamos nos tratando e como a tecnologia nos consumirá; este não é um episódio de Black Mirror. Ainda que não ofereça a mais acolhedora das conclusões, Drnaso tem consciência que de nada importa uma profunda análise sociopolítica se não existe força para atar os laços emocionais mais elementares. Onde falta apoio, a apatia e a paranoia encontram espaço.

P.S.: Outra referência que me retornou algumas vezes foi o ótimo curta Bradley Manning had secrets, de Adam Butcher. Trágico relato sobre a vida da agente do WikiLeaks que também foi vítima da imprensa e de achismos em geral. Recomendo. Disponível aqui.

Sabrina (★★★★★)
Nick Drnaso, Estados Unidos, 2018 / Drawn & Quarterly