lúcia voltou a fumar


Em dado momento de 'Lúcia", a personagem título vai até uma janela, fuma seu cigarro, e responde com pesar a pergunta feita segundos antes pelo outro personagem presente na sequência. Foram três cortes para comunicar algo que um plano único, forte o suficiente para sustentar o tenso e o trágico da situação, daria conta. Esse tipo de falta de fé (ou segurança) numa proposta estética que o próprio filme parece sugerir é recorrência quase invariável nos trabalhos de estreia ou início de carreira a que tenho assistido recentemente. Quando esse tipo de situação  ocorre é muito comum ver os diretores se agarrarem em coisas como uma montagem didática, uma direção de arte fortemente delineada, uma trilha sonora pontual e descritiva para comunicar aquilo que desejavam, sem perceber que só suas imagens (muito mais que suas palavras) já estavam tão capazes de contar aquela história.

Lúcia voltou a fumar é a história de uma mulher marcada por tragédia que tem um encontro fortuito que lhe devolve certa atenção à vida, e ainda que não seja a trama mais original, pode ser contada de forma a parecer inteiramente nova. A contenção e a dureza dos planos de Bermudes nos primeiros momentos do filme ensaiaram esse acerto, mas um certo didatismo agridoce vai se delineando pouco a pouco. De novo, é como tenho visto (e dito), falta aos estreantes (e aí já me encaixei tantas vezes) um pouco de fé nas próprias ousadias, por mais que o resultado seja duvidoso. É melhor errar tentando do que errar por não ter tentado.

Lúcia voltou a fumar (★★½)
Iuri Bermudes, Brasil, 2017