a guerra não tem rosto de mulher


Algum tempo atrás li 14, novela bastante interessante do francês Jean Echenoz que acompanha a tragédia de alguns jovens, vítimas da primeira guerra mundial. De todas aquelas imagens a que mais me voltava à mente era a da cidade sem homens, uma ruína viva, na qual as mulheres haviam sido forçadas a assumir todos os cargos. A figura da cidade sem presenças masculinas também é recorrente n'A guerra... de Svetlana Aleksiévitch, mas diferente das personagens de Echenoz, as mulheres-narradoras cujas histórias a jornalista compila neste que foi seu primeiro livro, estavam sempre em busca de agência, de repopular suas cidades não através da reza firme e da contemplação, mas da luta, como faziam os homens. Eram capazes, afinal.

Foi preciso uma láurea como o Nobel para que a particular abordagem jornalística de Aleksiévitch ganhasse admiradores e atenção pelo mundo inteiro. Bastante diferente da tradicional aproximação que literatura e investigação costumam ter, a ucraniana/bielorrusa usa sua voz apenas para pontuar detalhes e demarcar caminhos, deixando todo o protagonismo para aqueles que entrevista, mas é fato que esse estilo foi lapidado ao longo da carreira, e se vê de maneira muito melhor desenvolvida em Vozes de Tchernóbil e O Fim do Homem Soviético, para citar apenas os também editados no Brasil. Ainda que se queira abraçá-lo por seu inegável poder histórico e empoderador, A guerra... é muito claramente um livro de estreia.

A introjeção inicial da autora sobre seus deveres enquanto mediadora dessa herança oral soa tão ingênua quanto arrogante, e a construção do livro parece tão investida em abarcar tantos relatos e histórias quanto possíveis para compor um mosaico da história, que o resultado é um previsível inchaço. Certamente os melhores momentos são àquelas em que as colagens de depoimentos breves dão lugar a relatos mais longos e detalhados. A estrutura pode fazer sentido, mas não deixa de ser cansativa. À parte este, que a depender da abordagem pode ser considerado um detalhe banal, Svetlana atinge com sucesso aquele que era seu objetivo original: buscar uma outra dimensão para a guerra, a dimensão menos conhecida e curiosamente mais rechaçada.

É notória a participação feminina nas fileiras militares soviéticas mas, diferente do que se esperaria, o retorno dessas soldados, tenentes, sapadoras, lavadeiras, cozinheiras, para a rotina do pós-guerra não foi marcada apenas pelos traumas decorrentes da batalha, mas também pelo preconceito de uma sociedade despreparada para entender como uma mulher poderia habitar em pé de igualdade um espaço majoritariamente masculino. De forma geral, as entrevistadas ressentem bem menos a dificuldade que tiveram para serem reconhecidas nos ambientes militares do que eventual fama de vagabundas e relapsas para com a própria família que veio nos anos seguintes. É recorrente também a lembrança de que o desprezo vinha por vezes dos próprios companheiros de batalha, que no front eram tão solícitos e paternais.

Para muitas dessas mulheres, que se alistavam apenas por amor à pátria sem verdadeira compreensão do que significava estar num ambiente de combate, a guerra tornou-se um capítulo definitivo. Elas descrevem como tinham mais medo de uma mutilação do que da própria morte, porque depois de voltar para casa não seriam mais desejadas. Mas ao olhar em retrospecto percebem que estava ali mesmo seu ato de maior valor. Talvez esteja aí o trunfo de Svetlana, não apenas nesse mas em todos os seus livros, essa compreensão de que ouvir -e no processo de ouvir acompanhar todos os alinhavos e arremates que uma pessoa dá à sua própria versão dos fatos- é muito melhor do que apenas interpretar.

A guerra não tem rosto de mulher (★★★★)
Svetlana Aleksiévitch, Bielorrúsia, 1985 / Companhia das Letras