breve comentário sobre a fliporto 2018


Fiquei com vontade de tecer esse comentário porque, em uma das palestras que acompanhei na Fliporto 2018, um rapaz da plateia pediu o microfone para comentar pacificamente sobre os movimentos de elitização e embranquecimento da cultura, talvez não percebendo que estava num ambiente que tão bem representa esse tipo de comportamento. Nunca antes frequentei a Fliporto porquê não tinha grande interesse por literatura enquanto ela ainda acontecia (e aparentemente estava em seu auge), e só fui a esta edição por conta de uma oportunidade de trabalho no braço central da programação. Passar esses três dias imerso nas discussões oferecidas pela curadoria do evento, que é o mais importante em sua área no estado depois da Bienal do Livro, me fez perceber como aquele rapaz tocou num ponto flagrante. Das 18 mesas propostas pela direção criativa da feira, talvez uma ou duas tenham transposto a barreira do ego, da auto-congratulação, do dadaísmo completo e irrestrito, e sobretudo da branquitude.

Construída em torno de um mote tão genérico quanto "Diálogos do Contemporâneo", me chocou ver um descompasso tão grande da feira para com questões de fato contemporâneas, e aqui eu não falo apenas de temas recorrentes dos nossos dias como questões negras, feministas, e lgbts, mas da própria discussão literária num âmbito teoricamente aprofundado. Exemplifico: um debate intitulado "Influências africanas na literatura brasileira" viu dois homens e uma mulher (brancos) gastarem quase uma hora falando sobre como o período escravocrata brasileiro foi próspero (o que quero entender como alguma confusão minha na hora de processar a informação), mais alguns minutos falando sobre a composição étnica do Rio Grande do Sul, e finalmente uma breve citação à Jorge Amado. Em outra discussão, nomeada "Literatura e Internet”, os três debatedores (brancos), pareciam estar estacionados em 2005, e falavam de tópicos flagrantemente datados como “diferenças entre blogs e sites” e “hyperlinks”. Eu não sou teórico de comunicação mas me parece óbvio que oferecer uma discussão em torno deste tema em pleno 2018 e não falar sobre Youtube e Instagram é o mesmo que não discuti-la.

Não quero me aprofundar em exemplos mas era esta a tônica geral: pessoas com um aparente prestígio atrelado a seu nome tecendo comentários rasos (se mantenho a boa vontade) sobre assuntos que investigaram apenas empiricamente. É flagrante (ou óbvio) que, à parte a atenção dedicada a nomes famosos como Nelson Motta ou Claudia Alencar, o momento em que o centro de convenções da feira se viu mais concorrido foi a “abertura oficial”, com presença da prefeita da cidade e mais um punhado de políticos e empresários locais. O comentário geral é que esta Fliporto 2018 foi um movimento de reorganização, uma retomada. De volta a sua cidade original depois de vários anos em Olinda e outros dois estagnada por falta de financiamento, o orçamento foi enxugado e o alcance perdeu impacto, mas isto me faz pensar em eventos como a MOPI, que acontece agora em Recife, ou a finada FreePorto, festa literária anárquica comandada por Bruno Piffardini que ocorria anos atrás.

Grande orçamento pouco tem a ver com o esmero que pode ser aplicado a um evento desse molde, o que falta de verdade para a Fliporto é uma atualização. Uma curadoria mais interessada no que de fato move a literatura local e nacional seria o primeiro passo (ouvir que atualmente não existem movimentos de poesia contestadora e marginal em Pernambuco foi doloroso), e a conscientização de seus inúmeros privilégios seria o próximo. Porto de Galinhas não é Paraty, mas parece que falta aos nomes por trás do evento compreenderem isso.

P.S.: Essas considerações se referem única e exclusivamente ao planejamento criativo da Fliporto, e não ao seu operacional, que conseguiu fazer o evento funcionar praticamente sem percalços apesar da equipe reduzida.