sobre a questão tatiana feltrin


Devem ter uns três, ou quase três anos que eu voltei a ler com afinco. Antes disso foram pelo menos uns 5 ou 6 anos total ou parcialmente afastado da literatura. O principal fator que me trouxe de volta a esse universo foi o youtube da Tatiana Feltrin. Ela, obviamente, não é a crítica literária mais aprofundada do mundo, inclusive não se apresenta usando esse termo, mas faz um trabalho bem eficaz no que diz respeito a unir livros e leitores, inspirando essa vontade de correr atrás de algo pra ler. Existem inúmeros canais literários de sucesso no youtube, alguns muito maiores que o dela, mas creio que nenhum ou muito poucos tem o mesmo senso de organização e variedade de temas/interesses, fazendo todo tipo de pessoa se sentir bem recebida pelo universo dos livros.

Tatiana é tradutora e professora de inglês e há algum tempo, após perder ou largar o emprego não sei ao certo, começou a se dedicar exclusivamente à internet para ganhar dinheiro. Faz isso vendendo espaço publicitário no seu canal a preços bem salgados, o que hoje se entenderia como jabá, mas com algumas diferenças primordiais. No início de cada vídeo de publieditorial Tatiana avisa a público que estão prestes a ver algo patrocinado por um autor/editora, assim como pede a política do youtube. Além deste tipo de vídeo, que costuma sair às quartas feiras, ela posta outras duas ou três vezes por semana, falando sobre livros novos, antigos, seus desafios de leitura, o que gosta, o que não gosta.

O escritor Ronaldo Bressane contatou recentemente Tatiana para solicitar que ela lesse seu mais recente livro, e ficou tão indignado ao receber de volta uma tabela de preços que fez uma exposição pública (omitir seu nome é irrelevante, ela já falou sobre isso em entrevistas e todos conhecem os números de seu canal) e uma crítica sobre "funciona o mundo maravilhoso dos booktubers". Uma crítica que recebeu dinheiro para existir vai ser sempre motivo de dúvida, mas esse me parece mais um caso de birra contra uma coisa que não se compreende de fato. Porque Tatiana passaria para o topo de sua extensa pilha de leituras qualquer coisa que um escritor/editora enviasse? A exposição aprofundada de um material potencialmente desconhecido para uma audiência de 200k pessoas teria custo em qualquer outra mídia, porque 'alguém que faz vídeos na internet' precisa trabalhar por amor à arte? Não sei se o livro do senhor Bressane é aportado por alguma editora, mas que pena caso não seja e ele tenha precisado trabalhar de graça, ainda que em prol da própria arte. É bonito e válido, mas não desejo pra ninguém.

O post original do escritor tem uma enxurrada de comentários com pessoas solicitando 'o nome do pilantra' e ironizando a prática do 'bom jornalismo'. Provavelmente estacionadas no século passado. Tatiana tem dez anos no youtube, faz esse tipo de trabalho de forma esquematizada há cerca de dois. Os livros patrocinados são muito geralmente de escritores menores e de nicho: fantasia, aventura, saúde. Algum tempo atrás A Teta Racional, livro de contos da então estreante Giovana Madalosso foi promovido por ela. Comprei, li e gostei. Tantos outros vieram depois e não me despertaram interesse. Não acho impossível a leitura negativa da situação pensando num maior escopo de 'crítica de arte', mas no caso específico, enquanto é uma relação honesta de compra e venda, não vejo problema. Usar essa questão pra falar mal de um pessoal que discute livros, na maioria das vezes sem cobrar por isso, é só mesquinharia e desinformação. Longe de mim defender a Tatiana, posto que ela não precisa disso, mas a questão é outra.

Update: Frente à polêmica, Tatiana resolveu fixar publicamente em seu blog a tabela de preços. Ótimo, porém não precisava.