benzinho


É difícil não alinhar Benzinho com Que Horas Ela Volta?, enorme sucesso que Anna Muylaert lançou alguns anos atrás. Não apenas por conta da presença potente de Karine Teles nas duas instâncias, mas porque os dois filmes desejam cruzar as angústias da maternidade com as questões das sociedades brasileiras, uma pós-lula e outra pós-golpe; uma receita muito interessante porém muito delicada. Se Muylaert fez um novelesco melodrama (efetivo, diga-se de passagem) ao remontar a história da diáspora de tantas mães nordestinas, Pizzi e Teles (em sua segunda e aguardada parceria desde o excelente Riscado) trilham um caminho um tanto menos sentimental, que parece jogar um pouco contra os desejos de seus personagens, contra as pulsões de vida que eles oferecem. Talvez seja apenas um fiel retrato do Brasil de hoje.

Karine concede tons autobiográficos a essa matriarca de classe média baixa (seus próprios filhos estão no elenco) que, além de lidar com duras questões financeiras precisa aceitar a brusca e eminente partida do rebento mais velho, atleta promissor com convite para carreira no exterior. Ou seja, esta é uma ideia pensada e calculada para girar em torno de uma atriz, fazê-la brilhar, usá-la como instrumento-base para validar aqueles que a circundam, e se ao menos no aspecto dramático da questão é quase impossível discutir com a vivacidade que Teles injeta nessa figura tão tipicamente brasileira -e muito por isso tão complexa de emular-, o roteiro que ela escreve em parceria com Gustavo Pizzi tem algo de rígido, e por vezes um pouco esquemático. A cena em que a frustração da protagonista culmina numa dança histérica, por exemplo, não consegue soar genuína em nenhum nível, mas é útil, eficaz em sua função. Pessoalmente prefiro o devaneio à eficácia. Em tempo: o elenco coadjuvante está tão interessante quando a protagonista mas Otávio Müller impressiona muito como o pai de família vitimado pela crise e tentado a agarrar sonhos impossíveis. Última vez que o vi tão bem foi n'O Gorila, de José Eduardo Belmonte.

No entanto Benzinho me parece um apontador interessante dum certo tipo de "bom cinema brasileiro" que se preocupa também em ser popular num sentido mais prático do termo: através do humor. As imensas fatias de bilheteria feita pelas comédias da Globo nos anos 2000 e 2010 deixam bastante claro o que o grande público tem interesse de consumir quando se trata de cinema nacional, e uma leva de filmes investidos num equilíbrio entre seus anseios autorais e atenção às grandes plateias fariam um trabalho precioso de reeducação e re-sensibilização cultural. É possível lê-lo como uma comédia familiar, daquelas que Sundance verte todo ano (não à toa estreou lá), e se os espaços populares apostassem em exibi-lo, o resultado começaria a aparecer.

PS: Lembro agora de Quinze, curta brilhante de Maurílio Martins com uma Karine muito próxima desse espaço, mas num roteiro que me comove (e funciona) muito mais. Disponível aqui.

Benzinho (★★★)
Gustavo Pizzi, Brasil, 2018