bater bater no yuri


Carla Diacov é uma poeta brasileira, nascida em São Bernardo do Campo em 1975, é formada em Teatro. Carla Diacov escreveu um livro chamado A menstruação de Valter Hugo Mãe que eu morro de vontade de ler, mas ninguém tem, quem tem não quer me arranjar um, xerocar, fazer um pdf, eu cruzo os braços, a Carla Diacov eu não leio nunca mais. Carla Diacov escreveu um livro chamado bater bater no yuri, Yuri é um dos meus amigos mais queridos, uma exceção, a Carla Diacov vai ser lida por conta desse nome, pra mim tão mítico, tão místico, em cirílico fica Юрий. Carla Diacov, talvez criança, talvez olhando a vida através de um caleidoscópio daqueles que se compravam nas lojas de 1,99 em 1999, bate bate no Yuri porque tem por ele um apreço peculiar, ama e odeia, talvez adulta, ferida pelo Yuri, amada pelo Юрий, diz que "yuri / você não presta", diz que "yuri / você não presta atenção". Carla Diacov está pensando o poema como um jogo de amarelinha, o verdadeiro, não o do Cortázar; vejo seu rosto num exemplar do Suplemento Pernambuco em que responde as perguntas de Gianni de Melo: "Há sempre uma escada de incêndio quando há o desejo pela arte, quando se pensa a arte, quando há a disposição para a arte." ou "Nada também me interessa muito. O “nada” místico, íntimo, ou o nada NADA mesmo. Nada aconteceu? Ok.", e como é feio tirar de contexto, sei, mas estão aí os poemas do yuri/Юрий, encantar-se com uma figura pode ser nada ao lado dela, nada em cima dela, enfrentá-la, fugi-la, "com toda a licença a cabeça do yuri pesou". Carla Diacov vai lançar outros livros e sua poesia vai ser a mesma (sempre nova): a poesia maníaca e afetiva, repetitiva como entoasse um cântico enquanto aponta para um detalhe, a poesia do processo de retorno e antes disso da análise do processo de retorno e depois disso da festividade de ter concluído o processo de retorno e agora estar bem aqui.

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régua ampulheta metrônomo

agradável é esticar primaveras

yuri tornou a régua
o grande golpe sobre o tempo atende por yuri
transporta contigo yuri os dedos daqueles dias yuri
o fim de todos os dedos
o couro da intermitente incursão

medir medir a poça descomunal

nunca mais vou bater o coração no yuri

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bater bater no yuri (★★★★)
Carla Diacov, Brasil\Portugal, 2017 / Enfermaria 6