flores para algernon


Ficção científica não me é uma área de grande interesse e muito por isso tento desviar quando sei que um título está contido ali nas amarras do gênero. A leitura de Algernon, por exemplo, só ocorreu porque gosto muito do trabalho da escritora Luisa Geisler, e é dela a tradução nacional do romance desenvolvido por Daniel Keyes em 1966 (originalmente um conto). Para além do trabalho interessante de Geiser em verter para o português a linguagem errática e fraturada do protagonista Charlie nos momentos que antecedem a cirurgia que promete curar seu "retardamento", Flores para Algernon me surpreendeu como aquele tipo de ficção científica quase 100% interessada nas implicações sociais e morais de um experimento, o que me interessa bem mais do que mitologias complexas e universos distópicos.

Narrado a partir dos 'relatórios de progresso' do protagonista, o drama de Charlie em se ver marginalizado por sua deficiência cognitiva, e subsequentemente por se tornar superdotado, resvala aqui e ali no melodrama, o que não seria necessariamente ruim, mas de forma geral se mantêm frio e cerebral, quase um tratado sobre a possibilidade dessa experiência. Talvez outros títulos com propostas parecidas tenham empregado melhor as ideias que Keyes criou aqui, mas faz sentido que este seja até hoje um dos livros básicos no sistema de ensino norte-americano; ensinar um pouco de empatia não deveria sair de moda.

Flores para Algernon (★★★)
Daniel Keyes,  Estados Unidos, 1966 / Aleph