agosto 2018


de deus
o tempo que resta
quero investir no tesouro
sua boca à margem do rio
seu topete oeste no vento leste
seu abrangente leque de impossibilidades
nada tema o investimento de risco
se você quiser eu quero

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CINEMA

I am trying to break your heart (★★★★)
Sam Jones, Estados Unidos, 2002
Saudades do Wilco.

Hilda Hilst Pede Contato (★)
Gabriela Greeb, Brasil, 2018
Uma bomba.. Documentários que pegam uma personagem ou tema que eu gosto muito e transformam numa bobajada com pretensões de videoarte mas não entende nem da própria linguagem sempre me deixam muito revoltado. Nenhum documentário tem obrigação de oferecer respostas mas acho que o mínimo de coerência e vigor são necessárias. No trigésimo plano "poético" de fitas ao vento eu já tinha desistido.

Solon (★★★)
Clarissa Campolina, Brasil, 2016
Achei terrível na primeira vez que vi, hoje não me incomodou. Andei me sensibilizando pra umas questões de teatro e performance, talvez por isso. É todo corpo, renascimento, metáfora. Bonito.

Carne (½)
Mariana Jaspe, Brasil, 2018
Compreendo total o rolê sobre permitir que corpos negros ocupem espaços que lhes são negados, como por exemplo esses do cinema de gênero, mas no que isso importa de fato quando o filme é péssimo?

Boca de Loba (★★★★)
Bárbara Cabeça, Brasil, 2018
Cinema cearense, sempre uma questão de amor. Ler aqui.

Entre Pernas (★★½)
Ayla de Oliveira, Brasil, 2018
Divertidinho.

Lúcia voltou a fumar (★★½)
Iuri Bermudes, Brasil, 2017
Curta interessante, mas ainda soa como ensaio de algo que vem por aí. A ler.

Dogville (★★★)
Lars Von Trier, Dinamarca, 2003
Que lombra ver esse filme tantos anos depois, quando a gente é jovenzinho qualquer coisa parece obra prima. Curiosamente não achei tão ruim quanto a fama que ele ganhou diz. É meio bobo, mas o experimento estético/dramático com o teatro e a performance é muito bom, muito forte, não tem jeito, sobretudo quando você tem atores ótimos pra bancar a coisa.

Lean on Pete (★★★½)
Andrew Haigh, Reino Unido/Estados Unidos, 2017
Tinha grandes planos pra escrever algo sobre, mas ainda não aconteceu. Talvez um texto duplo com The Rider. Em breve.

Benzinho (★★★)
Gustavo Pizzi, Brasil, 2018
Não como como gostaria. Ler aqui.

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Yonlu (★★)
Hique Montanari, Brasil, 2017
Ainda não tive oportunidade de rever, mas reciclei meu texto sobre esse mau filme do Hique Montanari, que pouco faz justiça à memória do Vinícius. Aqui.

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LITERATURA

A guerra não tem rosto de mulher (★★★★)
Svetlana Aleksiévitch, Bielorrússia, 1985 / Companhia das Letras
Potente, mas pensando em retrospecto talvez um pouco decepcionante. A ler.

Sabrina (★★★★★)
Nick Drnaso, Estados Unidos, 2018 / Drawn & Quarterly
Das melhores coisas que li esse ano, recomendo com tanta força quanto possível. Tem breve texto aqui.

bater bater no yuri (★★★★)
Carla Diacov, Brasil/Portugal, 2017 / Enfermaria 6
Ler e reler a Carla Diacov. Ler aqui.

Flores para Algernon (★★★)
Daniel Keyes, Estados Unidos, 1966 / Aleph
Não costumo ter muita afinidade com ficção científica mas tenho sorte de escolher algumas que dialogam comigo em algum nível. Algernon apareceu por acaso mas tem um pouco disso. Texto aqui.

Both Ways is the Only Way I Want It (★★★★)
Maile Meloy, Estados Unidos, 2009 / Canongate Books
Desde que vi o Certas Mulheres, da Kelly Reichardt, fiquei com vontade de ler o material original, e não me arrependi. Comentei aqui.

Contos de primeiro grau (★★)
João Victor Barbosa, Brasil, 2018 / Edição do autor
Não tive contato com o restante da ainda breve obra de João Victor Barbosa, mas a impressão deixada por estes Contos de primeiro grau, plaquete artesanal distribuído digitalmente e composto por três histórias, é que o jovem se interessa por um texto vertiginoso, sujo, marginal, mas parece ainda estar num estágio de encontrar e posicionar sua própria voz dentro dessa estética bestial. De certa forma lembra Bukowski e Hilst: os fluxos de consciência, os arroubos de desejo e violência; mas também tem uma coleção de figuras e imagens muito particulares, que parecem apontar pra um lugar interessante no futuro. Espero ler mais (e melhor) dele.

Passo Imóvel (★★★)
Lilian Sais, Brasil, 2018 / Cozinha Experimental
Passo Imóvel: um plaquete de Lilian Sais. Um plaquete: pequena publicação, não raro amadora, contendo alguns poucos poemas, um pequeno ensaio, um recorte (pensado como um todo). Amadora: aquela que gosta muito de alguma coisa; amante, apreciador, entusiasta. Há algo disso neste Passo Imóvel, um entusiasmo avesso, uma gesto de reconciliação com aquilo que cerca a narradora, as paredes de sua casa, as paredes de seu próprio corpo. "é em mim que habitam / os fantasmas", diz, "mas há memórias / que não se transferem", diz também. Seria possível esse retorno ao exercício elementar de 'habitar' quando toda sua noção está associada ao trágico da existência, a incompreensão da falência materna e paterna, ao pavor da imobilidade? Lar: local, na cozinha, onde se acende o fogo; lareira. Os poemas do Passo Imóvel de Lilian Sais são um fogo que queima as pontas de seus dedos mas aquece o fogão que faz bolo e café; perder e ganhar, noções infantis.

Suicide (★★★★)
Edouard Levé, França, 2008 / Dalkey Archive Press
Lá pela metade de Suicide me veio a sensação de ter sido previamente familiarizado com aquele estilo labiríntico, exaustivo, afeito a listagens e aforismos, e o posfácio confirmou a suspeita; Edouard Levé era admirador e entusiasta dos exercícios estilísticos do Grupo Oulipo, mais especificamente da figura de Georges Perec. Mas tudo isso é divagação. Suicide, como diz o nome, é um brevíssimo romance composto na complexa segunda pessoa, onde o narrador tenta objetivar a morte desse 'tu' e alinhavar possíveis razões para que ele tenha tirado a vida. Daí o caráter vertiginoso da coisa, já que exatamente como Perec, Levé usa o esboço de uma ideia como ponto de partida para a próxima, e propõe uma terceira logo em seguida, e não demora para nós perdermos nas propostas e notas biográficas que esse narrador, sentimental e analítico em igual medida, tem para oferecer. Levé cometeu suicídio poucos dias depois de entregar esse manuscrito ao seu editor, o que deixa muito difícil dissociar Suicide a uma ideia de despedida, ainda que o autor tenha provido uma carta "oficial" para os seus próximos. Se existe em alguém a curiosidade de compreender os sentimentos de inabilidade e amortecimento que precedem um ato como esse numa abordagem de sentimentalismo quase zerado, a leitura seria essa.

Precisamos de Novos Nomes (★★★)
NoViolet Bulawayo, Zimbábue, 2013 / Biblioteca Azul
"Chegada em Budapeste", o primeiro e talvez mais potente capítulo de Precisamos de Novos Nomes, foi produzido originalmente como um conto e atingiu grande sucesso em prêmios literários internacionais. Essa informação esclarece um pouco a preferência de NoViolet Bulawayo por uma narrativa episódica, quase uma coleção de histórias que podem ser lidas de maneira independente (me lembrou muito A Visita Cruel do Tempo, da Jeniffer Egan), mas não a justifica de todo. Relato vigoroso de uma vida dividida entre o Zimbábue natal, sofrido porém atrelado à todas as memórias da primeira infância, e uma "América" que não é nada como aquela sonhada mas a qual é preciso aprender a chamar de lar, o verdadeiro trunfo de Bulawayo está muito mais na maneira como consegue tecer essas memórias afetivas e eventualmente desajustadas que vertem da mente infantil de Darling, sua protagonista. Variando entre o solene e o histericamente divertido, Novos Nomes faz o ingrato esforço de tentar esclarecer de uma vez por todas que, antes de "africanos", todos tem um país, uma cidade de origem, uma família. As desventuras de Darling nos Estados Unidos, tendo que dar conta de uma herança cultural que tanto se afasta dela ao mesmo tempo que precisa se acostumar com o ambiente de seus colonizadores, são muito potentes sem jamais parecer (esvaziadamente) panfletárias; talvez se fosse um pouco menor e menos rarefeito teria mais coerência, mas já é uma experiência bastante interessante.

+

Comentei brevemente a questão envolvendo a booktuber Tatiana Feltrin e também a experiência da Fliporto 2018.