a máquina de fazer espanhóis


Não é o caso de uma derrapagem completa mas minha relação com Valter Hugo Mãe, que começou nos melhores termos possíveis (A Desumanização), parece estar se esgarçando pouco a pouco. Se O Filho de Mil Homens não chegou ao nível do primeiro contato e os Contos de Cães e Maus Lobos foram ainda mais abaixo, A máquina de fazer espanhóis talvez seja o momento em que menos me conectei com o português até agora [me faltam vários, eu sei]. Não consigo apontar uma razão particularmente boa para isso, mas temo estar embarcando na corrente que pensa no escritor como mágico de um truque só, sempre apegadíssimo a seus devaneios poéticos e sua crença irremediável na potência da bondade e pureza humanas, mesmo neste que talvez seja seu romance mais duro, repleto de comentários políticos. No entanto não posso negar que o talento para compor personagens está lá, e a história do Silva idoso, viúvo, forçado num asilo, procurando nova razão para uma existência revirada do avesso, é certamente interessante como tudo aquilo que ele faz.


A máquina de fazer espanhóis (★★★)
Valter Hugo Mãe, Portugal, 2010 / Cosac Naify