junho 2018


desbrava os charcos onde satã
depois de tanto esforço e tanta
leitura equivocada das cartas
do tarô enterrou os seus agora
um majestoso terreno onde o
turdus merula e o prunus persica
une os dois numa bandeja de
latão e oferece ao nome geryon
sabem dançar pegam os sapatos
emprestados mas nunca as meias
trocam carinhos e sabem aquilo
que a fila morosa e mutilada
levará uma quebra temporal
até descobrir [e nem chegada
essa data festiva terão de fato
compreendido seu mecanismo]
escreve isso aquele que beijou
o morto na boca apenas porque
só haviam os dois ali

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CINEMA

Os Fantasmas de Ismael (★★★)
Arnaud Desplechin, França, 2017
Não fosse a segunda metade do filme, onde Desplechin parece fazer esforços homéricos para que ninguém se importe com nada do que está acontecendo, Ismael seria um filme ótimo. Como está, cai mais pro lado do bom e só, mas segue como uma experiência curiosa pelo limiar do controle extremo/descontrole maníaco (falo de diretor, não personagens). Desplechin faz um filme rigorosíssimo num tom sempre dois dedos acima da realidade, dimensões teatrais, uma encenação tétrica — espaços abertos como calabouços, tudo isso amontoado na mais velha história do cineasta estranho (Mathieu Amalric, olhos arregalados and all), com dificuldades para terminar um filme e maiores dificuldades para lidar com as mulheres que o circundam. Gainsbourg e Cotillard, essas sim, donas da primeira hora, fazendo seu próprio Persona, brincando de faz de conta num mundo prestes a acabar. Eu super entendo quem acha horrível, menino moço dá espaço pra isso, mas é ok, vamos sobreviver a ele.

Oito Mulheres e Um Segredo (★★)
Gary Ross, Estados Unidos, 2018
Pro meu modesto paladar, filmes de golpe são mais divertidos quando sabem ser ágeis, espertos, pensar um passo a frente do espectador, e sobretudo ser chiquérrimos, mais ou menos como Soderbergh fez no primeiro filme dessa franquia. Nesse aqui é tudo meio morto, asséptico, quadrado. Se a ideia do roubo é quase mais importante para golpistas do que o ato em si, o roteiro deixa as duas coisas francamente desinteressantes.

O Amante Duplo (★★½)
François Ozon, França/Bélgica, 2017
Queria que fosse menos Supercine e mais Cine Band Privê.

Superpina (★★½)
Jean Santos, Brasil, 2017
Apesar de soar muito como um grande trailer para a versão longa (que parece bem interessante), a total aleatoriedade e fragmentação faz esse corte menor ter algo de curioso também. Preencher as imensas lacunas e elipses com o que achar mais apropriado se torna um exercício divertido. Mas confesso que não entendi a escolha de lançar oficialmente essa versão quando a completa parecia ter tanto potencial.

Tentei (★★★★)
Laís Melo, Brasil, 2017
Parece que vai ser meio didático, e talvez até seja um pouco, mas que economia, que controle, que exposição firme da dor dessa pessoa. E que espanto de atriz essa moça Patrícia Saravy, espero vê-la mais vezes.

Thoroughbreds (★★★½)
Cory Finley, Estados Unidos, 2018
Gostei, escrevi umas linhas aqui.

Só Aqui (★★★)
João Pedro Faro, Brasil, 2018

A Noite Estava Fria (★★½)
Leonardo Amaral, Brasil, 2017
Bonito. Me parece uma promessa, um esboço de algo grande que está pra chegar e ainda não conseguiu fazer as correlações certas, mas sempre me emociono ao ver filmes que me lembram das condições em que fazia os meus [sobretudo os que investigam conexões românticas íntimas e diretas entre dois iguais], muito simples, muito artesanal. Filmes assim me dão vontade de voltar.

Travessia (★★)
Safira Moreira, Brasil, 2017

Baronesa (★★★½)
Juliana Antunes, Brasil, 2017
Debates são quase sempre exercícios bem interessantes. Quase sempre nesses eventos alguns mistérios de um filme se desconstroem para servir de base a outros, ainda mais interesses. Ontem fui a um debate sobre Baronesa. Descobrir o caráter muito mais encenado que urgente do processo não me surpreendeu de todo mas saber que o processo se deu de forma praticamente trabalhista, com diretora e atrizes atravessando experimentações tentativa-e-erro até chegar no que é o produto final. Rende também algum incômodo com uma possível abordagem etnográfica e pouco responsável do filme para com suas figuras mas aí me pergunto: num filme em que as personagens tem liberdade de participar do processo criativo e interferir nele quando acharem cabível, resultando por exemplo na costura entre discussões sobre sexualidade feminina com a violência [sempre patriarcal] que impera nas favelas, como exatamente se propõe essa crítica a um olhar supostamente etnográfico, viciado e pervertido, que quer apenas ‘chocar a classe média com um retrato viciado dos pobres’? Como funciona essa cobrança de que o filme não torne a resumir o favelado aos mesmos estereótipos de violência e opressão se os momentos de respiro e simples observação que desviam desses tópicos são criticados por serem escapistas? Queria mas não consigo compreender; e é essa a parte boa do debate.

A Bordo (★★★)
Davi Mello, Brasil, 2015
Brevíssima e muito delicada observação sobre uma mulher de 40 anos que sofre um aborto espontâneo e lida consigo mesma nos momentos posteriores à descoberta do fato. Dito assim parece bastante simples e é provavelmente essa a potência dele. A brevidade e coesão de um curta que se deseja narrativo é tão importante quanto qualquer outra escolha, e formatar uma história tão cheia de arestas emocionais para ser contada em vinte minutos requer algum esforço. A princípio me pareceu que se tratava quase que de dois filmes unidos por uma cola não muito firme, mas felizmente os dois terços posteriores, com sua pausa e silêncio, são suficientes. Talvez só me incomode um pouco certa dominação que a mise en scene parece exercer sobre o resto, por vezes soa como se o filme existisse em volta daquelas composições, e não o oposto. Feliz que o Davi está fazendo outro filme, tem muito espaço e potência pra crescer.

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LITERATURA

O Amante (★★★)
Marguerite Duras, França, 1984 / Cosac Naify
Sempre tive curiosidade sobre a diferença entre O Amante e O Amante da China do Norte, e aparentemente o segundo se trata de uma versão mais longa e elaborada dessa grande colagem de impressões, sensações, memórias e desejos que é o primeiro. Baseando-se amplamente em sua própria vida, Duras fala sobre uma juventude desesperadora num seio familiar sufocante, os respiros e tribulações que as primeiras ondas de desejo provocam, e sobretudo as marcas que esses momentos causam e como elas deixam impacto de longo prazo. Dito isso, e considerando também que a francesa era incrivelmente hábil com a palavra escrita, O Amante soa amplamente desinteressante em qualquer âmbito que não o mais acadêmico e cerebral. Estudar os caminhos e descaminhos e liberdades que sua narrativa toma parece ser um exercício fascinante, já a fascinação advinda simplesmente dos sentimentos não alcancei.

O Voyeur (★★★)
Gay Talese, Estados Unidos, 2016 / Companhia das LetrasA versão curta de O Voyeur, veiculada na New Yorker em abril de 2016, é algo mais eletrizante que sua forma final. Eliminados os excessos e reiterações que fazem do livro curioso mas francamente repetitivo, a história de Gerald Foos, militar, marido, e dono de um hotel convertido em ‘laboratório de observação’ onde ele passou décadas observando a vida [sobretudo sexual] de seus hóspedes, ganha bastante. Não se trata do melhor trabalho de Talese, o estudo da sexualidade americana feito por ele em A Mulher do Próximo é muito mais curioso, mas no fim das contas O Voyeur é muito menos sobre sexo e mais sobre moralidade, legalidade, obsessão. Sua relação de décadas com o Voyeur de Aurora atravessa sim inúmeros momentos chave da sociedade norte-americana, mas o que se sobressai é um inquietante pensamento sobre intimidade e honestidade. Talese é cúmplice de uma pessoa quase sociopata em sua abordagem “antropológica” ou apenas se atinha a suas incumbências jornalísticas? Quando um assassinato entra em jogo as questões ficam ainda mais delicadas. Depois de seu lançamento o livro já passou por uma série de polêmicas, a maioria delas fomentada pela posteriormente descoberta facilidade de Food em manipular os fatos (o seu amado hotel nem mesmo pertenceu a ele por boa parte do período que descreve), e talvez isso só aumente a fascinação que a história causa.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (★★)
Marta Batalha, Brasil, 2016 / Companhia das Letras
Já ali no comecinho de ‘Vida Invisível’ Marta Batalha tenta dar um golpe baixo no coração do leitor falando qualquer coisa como ‘a história das nossas avós’. Duas ou três vezes ao longo do livro essa tática funciona e a compaixão por Eurídice e sua existência como mulher que, vivendo no Brasil dos anos 40 não teve chances de explorar seus dons e sonhos, se torna bastante palpável -não tive como não lembrar do recém lido e muito mais interessante A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda. A estreia de Batalha como romancista sofre bastante do mesmo problema publicitário que a Companhia das Letras infligiu recentemente a ‘O Sol na Cabeça’, de Geovani Martins: um livro de estreia irregular, ainda que apontando um caminho promissor, sendo tratado como a grande novidade da literatura nacional. A falta de foco de Batalha na hora de nortear os desejos e o futuro de suas personagens (já que este livro é mais sobre um grupo de pessoas do que sobre a personagem título) não denota falta de talento, apenas deixa claro que ainda não é esse o seu grande momento.

Apenas o Fim do Mundo (★★★★)
Jean-Luc Lagarce, França, 1990 / Imprensa Oficial
Não sei ao certo se ler esse texto de Jean-Luc Lagarce fez com que eu criasse algum respeito pela adaptação cinematográfica de Xavier Dolan ou confirmou que aquele foi apenas o rascunho de algo realmente interessante. Falo em criar respeito porque adaptar um material tão intenso, e curiosamente críptico em sua intensidade, não deve ter sido o mais simples dos trabalhos. Lagarce escreve um melodrama familiar que é ao mesmo tempo histérico e contido, que coexiste num universo de acentos e sublinhados, que concede às inflexões e as pausas o poder de costurar intenções tão diversas numa única frase. Louis, que volta à casa de sua família depois de longa ausência, tinha planos de resolver antigos problemas e anunciar sua eminente morte, mas se vê mais e mais enredado nas consequências de abandonar o seio familiar sem deixar rastro. Curiosamente não é Louis o protagonista, e sim essa ausência, esse buraco que ele deixou e que seus irmãos e mãe tentam compreender. Imagino que os enormes monólogos sejam um desafio para qualquer ator, mas é justamente neles que o texto mostra sua cara mais violenta e instigante. Gostaria muito de ver uma montagem, ou talvez seja o caso de dar uma segunda chance ao filme.

Seiva veneno ou fruto (★★★)
Júlia de Carvalho Hansen, Brasil, 2016 / Edições Chão da Feira
‘Seiva’ parece estar sempre ocupando duas frequências: aquela terrena na qual vivemos e tanto conhecemos, mas também uma frequência extraterrestre, um espaço inominável que não necessariamente está ligado à espiritualidade e não tem forma, nem cor, nem cheiro. É quase como presenciar o recebimento de um evangelho por um povo que ainda precisará aprender a decodificá-lo, e em muito se beneficiará disso. Astróloga e praticante dos rituais da Ayahuasca, Júlia comentou em entrevista que cada vez mais tem percebido como a poesia e seu lado espiritual conversam intimamente, e talvez ‘Seiva’ seja um caminho natural a se tomar para promover um encontro entre essas expressões.

Gincana da Morte (★★★)
Marcos Rey, Brasil, 1997 / Editora Ática
Para além dos títulos de Pedro Bandeira (que nem sei se fazem parte) eu não tenho lá muita memória de quantos e quais livros da coleção Vaga-lume cheguei a ler quando criança/adolescente, mas a recente revisão de alguns deles provaram que é um tipo de texto que funciona bem melhor se propulsionado por uma dose de ingenuidade. Gincana da Morte trabalha no mesmo esquema mas curiosamente suas pretensões noir, personagens, e trama se sustentaram bem numa leitura atual, ainda que seja necessário abandonar qualquer compromisso com lógica ou coerência. Divertido e basta.

Pequenos incêndios por toda parte (★★★)
Celeste Ng, Estados Unidos, 2017 / Intrínseca
São curiosas as questões que, mesmo não sendo o mais esperto ou cativante dos livros, Pequenos incêndios por toda parte é capaz de causar. Isso se deve talvez à grande dimensão temática que Celeste Ng tenta abraçar nas suas 400 páginas. Essencialmente um drama sobre o mistério da maternidade, o livro explora lugares tão distintos quanto inconsequência adolescente, identidade étnica e racial, o declínio e a hipocrisia do sonho americano, e até mesmo as mudanças que chegavam com o fim do século 20, e só não é impecável ao alinhavar essas questões porque seus mensageiros são personagens que aqui e ali resvalam no cartunesco. O embate que se desenha, por exemplo, entre as matriarcas (se assim podemos chamá-las) Mia e Elena começa como um discreto jogo de observações e caminha cada vez mais para um carregado e novelesco desfecho, que serve apenas para evidenciar os lados mais clichê de suas construções; uma é livre e sensível, a outra, mesmo dotada de humanidade, é a definição pejorativa da burguesia. Não sei exatamente como se define o que é um livro jovem adulto, mas se formos pensar em temas, abordagens, e aproximação estilística, este aqui fica num limbo que não o favorece muito. Consigo facilmente entender o apreço que público e crítica nutrem por ele, mas não sem um dedo de distanciamento.

O Assassinato e Outras Histórias (★★★★)
Anton Tchekhov, Rússia, 1900 / Abril ColeçõesAo invés de ficar repetindo a ladainha sobre a genialidade de Tchekhov me limito a dizer que, tendo conhecido seu trabalho primeiro pelo teatro e só depois chegando aos contos, aparentemente o formato mais potente de sua criação, sigo gostando bem mais de seus textos dramáticos. Compilado de histórias escritas no fim da vida, as tramas de O Assassinato aparentemente mostram o pessimismo com relação aos seres humanos que tomou conta do autor em seus últimos anos. São contos morais, geralmente focados numa vida campestre e provinciana, e em como é praticamente impossível ser honesto e empático na Rússia do século 19. Ainda bem que Tchekhov não viveu pra ver o estado do mundo hoje.