julho 2018


esqueço o que é o mundo
a cada dia sem abacaxi
a cada dia sem revisão no preço da etiqueta
que pousa discreta na dobra do meu ombro
tenho me preocupado com o tempo
com o ponto da carne na churrasqueira
com o gelo insidioso sabotando a caipirinha
seus sucos tão trágicos
se apenas um desejo
gostaria de lembrar
com maior propriedade

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CINEMA

Tomb Raider: A Origem (★★)
Roar Uthaug, Reino Unido/Estados Unidos, 2018
Alicia Vikander balança mas não cai (às vezes cai) - O Filme. Nunca vi um filme que parecesse tanto com um videogame, tanto em visual quanto em narratividade. Não sei se gosto, acho que nesse caso não.

Gerald's Game (★★★)
Mike Flanagan, Estados Unidos, 2017
Dizem os fãs que Gerald's Game é uma das mais fiéis transposições do texto de Stephen King para a tela do cinema, o que não posso negar ou confirmar já que não li o livro em questão e tive pouco contato com o escritor. Fora dessa questão, o filme de Mike Flanagan é um suspense/horror interessante, divertido, curioso ate não ser mais. Apresentado como uma peça de câmara onde as projeções mentais de uma mulher passam a colaborar com ela numa situação extrema, Flanagan ganharia muito se confinasse o filme inteiro àquele espaço. As digressões narrativas que servem para contextualizar e potencializar o comentário central -a perversidade do patriarcado e a figura da mulher que, literalmente, se livra dessas amarras- poderiam ter sido condensadas no espaço daquele quarto sem grande ônus. É bom, mas parece estar sempre assombrado por um clima de (mau) telefilme, o que se confirma nos sofríveis minutos finais.

Réquiem para Sra. J (★★½)
Bojan Vuletić, Sérvia, 2015
É o mesmíssimo filme de ~humor negro~ sobre personagens entristecidas e miseráveis do leste europeu sofrendo nas mãos da vida e das burocracias do sistema que você já viu inúmeras vezes, e não é particularmente melhor que nenhum de seus pares. Talvez tenha uma nota interessante se pensarmos nas possibilidades que a enlutada e deprimida porém perseverante personagem principal oferece, mas como ela é soterrada pela inocuidade do todo, ficamos nesse impasse.

O Caminho dos Sonhos (★★★★)
Angela Schanelec, Alemanha, 2016
Um filme inteiro de extracampos, imagens que inventam e almejam aquilo que está muito além do poder de captura e aprisionamento da câmera. Não à toa essas pessoas estão o tempo todo olhando para um algum lugar distante, a menina Schanelec escreve tudo com esses olhares, com essa tela fundamental de cinema que não permite alongamentos, que contêm. Misericórdia eu podia passar horas falando desse rolê.

As Boas Maneiras (★★★★)
Juliana Rojas e Marco Dutra, Brasil, 2018
Queria muito ilustrar esse post com uma imagem da segunda metade do filme que não essa mais famosa, mas não encontrei uma que desse conta dos porquês. Sinfonia da Necrópole e Quando Eu Era Vivo já eram isso, em tons diferentes talvez, mas a sensibilidade de um Brasil noventista com suas Xuxas demoníacas e gibis da Turma da Mônica veio toda pra cá. Que delícia que é ver a história do menino-lobinho logo depois daquela primeira porção tão climática e tradicionalmente fincada no terreno do horror. Entendo que o segundo ato seja rechaçado por quem esperava maior coesão, mas eu acho que o filme só funciona -e como funciona- por causa desse encontro do refino estético com o jogo de bola na rua de casa. TOP.

Canastra Suja (★½)
Caio Sóh, Brasil, 2018
Vários amigos gostaram e recomendaram e estou eu cá tateando em busca de um porque, já que esse Canastra Suja é filho daquelas tragédias pornográficas que Alejandro Iñarritu e Guillermo Arriaga faziam ali pelo começo da carreira. O elenco é ok (sempre que Adriana Esteves trouxer Carminha de volta eu estarei lá), e a fotografia -em falando de pornografia- tem uma paixão tão febril e perversa para com os infortúnios de seus personagens que eu acabei achando interessante. O tal cinema contemporâneo brasileiro é muito estático, estéril, todo tableux e composição medida na régua, uma histeria pontual acaba por mexer comigo positivamente. Mas é isso, esse moço Caio Sóh ainda não deu uma dentro, coitado.

Jogador Nº 1 (★★½)
Steven Spielberg, Estados Unidos, 2018
Pra quem fala inglês, esse vídeo.

Meus 15 Anos (★★★)
Caroline Fioratti, Brasil, 2017
Agamben disse que "o elemento do cinema é o gesto e não a imagem"; quem sou eu pra discordar.

Angels in America (★★★★★)
Mike Nichols e Tony Kushner, Estados Unidos/Itália, 2003
Hino atemporal.

Os Incríveis (★★½)
Brad Bird, Estados Unidos, 2004
Não gostava antes, não gosto agora. Cansado.

Hannah Gadsby: Nanette (★★½)
Madeleine Parry e Jon Olb, Austrália, 2018
É que eu não gosto muito de ouvir discurso.

The Devil and Father Amorth (★)
William Friedkin, Estados Unidos, 2017
Legal que o Friedkin não tá fazendo filmes genéricos, como um monte de nomes da geração dele mas era essa a opção? Prevejo que entra como extra no próximo bluray d'O Exorcista.

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LITERATURA

Um jogo bastante perigoso (★★★★)
Adília Lopes, Portugal, 1985 / Editora Moinhos
Adília Lopes, a bruxa. Nem boa nem má, uma bruxa dedicada a seus sortilégios, alquimista dos elementos mais microscopicamente elementares do poema. Só Adília (não só ela, mas ela só) parece compreender a consistência e a elasticidade de uma brincadeira muito bem falada. Brincar de falar, de dizer, de construir uma narrativa pelo caminho inverso; ter nas mãos um material bem formado e nascido e fatiá-lo à procura das tramações do poema. Exatamente como diz o título deste volume (seu primeiro livro e até então inédito no Brasil), é talvez o perigo o maior denominador do fazer poético, e se em outra boca isso pareceria óbvio e elementar, aqui é uma revelação. Estamos todos em Fátima e a senhora Lopes traz as boas novas (bruxa, ainda). Ainda que 30 anos no passado, que outra voz se safaria com algo no naipe de "O que me custou/foi tudo ter acabado/como tinha começado/como se nada se tivesse passado/durante/ora o que se passou durante/ainda hoje me incomoda/e portanto deve ter acontecido"? Minha ingênua e pouco estudada definição de feitiçaria.

Andarilhos (★★★)
Rodrigo Tavares, Brasil, 2017 / Martins Livreiro
Faz bastante sentido que o nome de Letícia Wierzchowski seja citado nos agradecimentos de Andarilhos. Talvez o primeiro (único) nome que vem à mente quando se pensa em literatura regionalista gaúcha, a escritora responsável pelo famoso A Casa das Sete Mulheres parece ter sido um referencial muito importante para Rodrigo Tavares em seu Andarilhos, romance breve porém bastante climático que une as vidas de três homens no extremo sul do Brasil em meados do século 20 (talvez Érico Veríssimo seja outro nome a se citar). Levemente indeciso entre ficção histórica, melodrama e romance de cavalaria, o texto pode soar algo episódico e desconjuntado em alguns momentos mas os personagens, e sobretudo seu léxico tão sedutoramente gaúcho, são capazes de aliviar defeitos aqui e ali. No mais, parece que escritores iniciantes tem medo da palavra, querem dominá-la e não trocar com ela. Passada essa fase de tentar compactar o discurso e não caminhar a seu lado as coisas devem fluir mais naturalmente; fico aguardando uma próxima empreitada do rapaz.

A Cabeça do Santo (★★★)
Socorro Acioli, Brasil, 2014 / Companhia das Letras
Curioso que esse romance (novela?) da cearense Socorro Acioli esteja categorizado como literatura jovem adulta, tendo até ganhado um prêmio do gênero. Por mais que nenhum dos temas do texto seja particularmente adulto, o tom da coisa não me remete aos chavões mais tradicionais da literatura destinada a esse demográfico, o que talvez seja uma coisa boa. Fruto de uma oficina que teve Gabriel García Márquez como facilitador, a breve trama de Acioli se agarra com força a uma intensidade quase perdida da literatura latino-americana; numa comparação um pouco descabida mas ainda coerente, A Cabeça do Santo me lembrou muito o vertiginoso Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Desde as desventuras por uma cidade interiorana abandonada e os encontros com seus fantasmas e coronéis até a expressão religiosa como forma de vida máxima, a fábula cearense parece dever muito a seu parente mexicano. Os tons farsescos e fantásticos fazem todo o sentido nesse universo que parece pronto para estampar as páginas de um cordel, mas eu sinto que, para além de um ritmo um pouco truncado ao narrar a história do pobre diabo que passa a ser mensageiro de um santo degolado, as tintas regionalistas ficam à beira da curiosidade antropológica, bem longe do afeto pelas imagens nativas. Vale mais como uma leve trama de aventura.

Memórias da infância em que eu morri (★★★)
Hugo Pascottini Pernet, Brasil, 2017 / Penalux
Estreia do carioca Hugo Pernet nas formas longas, Memórias da infância em que eu morri traça um sinuoso percurso entre escolhas muito seguras para um primeiro livro e alguns equívocos e inconsistências que parecem tirar a força de sua voz. Um livro de estreia, afinal. Com o pé perigosamente fincado no terreno da famigerada autoficção, Pernet conta a história de um Hugo outro ou talvez do Hugo ele quando criança, acometido por uma doença inominável que se instala na sua rotina como o hospedeiro maligno que é e passa a minar tudo aquilo que seus olhos de criança entendiam como o padrão. A escolha mais intrigante do livro talvez esteja na voz dessa criança protagonista, um menino de 9 anos, fã de futebol e Fernando Pessoa que fala com a propriedade e a desenvoltura de um escritor, criando uma rachadura muito forte na maneira como o percebemos. Estas memórias de infância estariam sendo fabricadas ou meramente revisadas em busca de algum elo perdido? Apesar de ser claramente fã do poeta português, o texto do escritor remete com mais urgência aos sufocos estilísticos de um Faulkner, ainda que não pareça ser essa sua intenção. Esse filtro meio infantil meio outra coisa pelo qual passam as experiências do protagonista, sobretudo sua relação com o fervor religioso dos pais, deixa uma nota de tensão perpetuamente suspensa no ar, provavelmente o que me remete ao autor americano. No mais, para além de sofrer da questão de parecer estar sempre à serviço das palavras, e não o oposto -questão que invariavelmente percebo em livros de estreia-, Memórias é um livro substancialmente mais curioso que seus parceiros de safra.

Júbilo, memória, noviciado da paixão (★★★★)
Hilda Hilst, Brasil, 1974 / Companhia das Letras
"A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca."
Júbilo foi o retorno de Hilda ao universo poético depois de vários anos imersa na prosa, teatro e outros processos criativos. Aparentemente isso é importante para a leitura desse volume, mas para mim, praticamente um iniciante em seu universo, um posicionamento temporal é bem menos importante que um guia que me tome pela mão. Me parece que Júbilo, assim como diz seu extenso título, é uma coletânea de intensas investigações sobre o ato de amar, ou mais especificamente sobre a potência dilacerante (e abstrata) desse sentimento. Quase todo dedicado a um muso onírico, perfeito, cruel, ouvem-se os clamores e diálogos internos de uma voz perdida (e encontrada) nos descaminhos de seu próprio desejo, o que soa bastante genérico até se bater o olho nos comos e porquês tortuosos e certeiros de Hilda. Mas creio que me falta um guia. Uma voz para abraçar ou uma base da qual discordar. Me parece que Hilda não basta sentir, há que investigar.

A máquina de fazer espanhóis (★★★)
Valter Hugo Mãe, Portugal, 2010 / Cosac Naify
Não é o caso de uma derrapagem completa mas minha relação com Valter Hugo Mãe, que começou nos melhores termos possíveis (A Desumanização), parece estar se esgarçando pouco a pouco. Se O Filho de Mil Homens não chegou ao nível do primeiro contato e os Contos de Cães e Maus Lobos foram ainda mais abaixo, A máquina de fazer espanhóis talvez seja o momento em que menos me conectei com o português até agora [me faltam vários, eu sei]. Não consigo apontar uma razão particularmente boa para isso, mas temo estar embarcando na corrente que pensa no escritor como mágico de um truque só, sempre apegadíssimo a seus devaneios poéticos e sua crença irremediável na potência da bondade e pureza humanas, mesmo neste que talvez seja seu romance mais duro, repleto de comentários políticos. No entanto não posso negar que o talento para compor personagens está lá, e a história do Silva idoso, viúvo, forçado num asilo, procurando nova razão para uma existência revirada do avesso, é certamente interessante como tudo aquilo que ele faz.

Garotas Mortas (★★★★)
Selva Almada, Argentina, 2014 / Todavia
Ainda em inícios de seu relacionamento, a mãe de Selva Almada não titubeou em contra-atacar, com um golpe de garfo, a ameaça física que sofreu de seu marido, pai da escritora. Ainda que essa memória pessoal seja um dos pontos essenciais da gênese e da compreensão de Garotas Mortas, é muito impressionante como o brevíssimo livro se recuse a habitar um único gênero literário. Parte jornalismo investigativo, parte thriller policial, parte ensaio, e ainda com a já citada veia autobiográfica, a autora concatena e esmiúça três feminicídios ocorridos na Argentina dos anos 80 para comentar todos os pequenos agentes responsáveis pela indiscriminada violência contra a mulher que assombra a sociedade. Desde microcosmos, como a reação particular de cada família entrevistada, até um pensamento que tenta compreender, por exemplo, a lógica que rege o acordo tácito de não se comentar sobre violências domésticas de forma geral, Almada alinhava dúvidas e proposições sem buscar respostas claras (que provavelmente não existem) e sobretudo sem soar didática. É boa literatura latino-americana com todo o peso que esse título traz.

Os Buracos (★★★)
Giovanni Arceno, Brasil, 2018 / e-galáxia
Livro bacana do colega. Escrevi aqui.

Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (★★★★)
Hilda Hilst, Brasil, 1984 / Globo
"É rígido e mata
Com seu corpo-estaca.
Ama mas crucifica.
O texto é sangue
E hidromel.
É sedoso e tem garra
E lambe teu esforço
Mastiga teu gozo
Se tens sede, é fel.
Tem tríplices caninos.
Te trespassa o rosto
E chora menino
Enquanto agonizas.
É pai, filho e passarinho.
Ama. Pode ser fino
Como um inglês.
É genuíno. Piedoso.
Quase sempre assassino.
É Deus."

Canções para o fim do mundo (★★★★)
Thiago Gallego, Brasil, 2016 / Editora 7 Letras
Não tem coisa que eu ame mais do que a poesia conversada; a poesia que conversa (um filme falado). Ou talvez sim, talvez eu ame mais a poesia que conversa num tom sóbrio, a garganta honesta, um assunto que eu sei discutir. Diálogo. Comodidade (não tenho vergonha de querer o louro sem o esforço). Quero que alguém me apresente ao menino Thiago para que eu seja o melhor amigo dele e ele me diga poesia de Eduardo Coutinho, poesia de Adirley Queirós, poesia de canção. Só canção mesmo, sem cantor, sem banda. Como o mundo é; uma poesia toda, sem cantor, sem banda. Ele diz "gosto de escrever poemas / que também acabam / mas quando eu acabo / gosto de ouvir canções", e é cada um com seu método. Eu por exemplo gosto de ouvir canções nos entrementes do processo (por isso perco a métrica, brigamos eu e ela) e ainda bem, que assim seja. Ele diz "às vezes eu acredito / no mundo / às vezes não" e é um mundo que acaba, um mundo Rio de Janeiro, Vila Isabel, todo violência e calor e falta de ônibus, que já acabou. O que se faz com quem faz o mundo deixar de ser? Ele diz "imagine agora / só existem no mundo / canções e caixas / de fósforo". Eu fico por aí. É um megamíni de 24 páginas editado pela 7letras onde cabe um mundo inteiro de audio e visual, e estou severamente impressionado. Sinto uma coisa nas solas dos meus pés.