garotas mortas


Ainda em inícios de seu relacionamento, a mãe de Selva Almada não titubeou em contra-atacar, com um golpe de garfo, a ameaça física que sofreu de seu marido, pai da escritora. Ainda que essa memória pessoal seja um dos pontos essenciais da gênese e da compreensão de Garotas Mortas, é muito impressionante como o brevíssimo livro se recuse a habitar um único gênero literário. Parte jornalismo investigativo, parte thriller policial, parte ensaio, e ainda com a já citada veia autobiográfica, a autora concatena e esmiúça três feminicídios ocorridos na Argentina dos anos 80 para comentar todos os pequenos agentes responsáveis pela indiscriminada violência contra a mulher que assombra a sociedade. Desde microcosmos, como a reação particular de cada família entrevistada, até um pensamento que tenta compreender, por exemplo, a lógica que rege o acordo tácito de não se comentar sobre violências domésticas de forma geral, Almada alinhava dúvidas e proposições sem buscar respostas claras (que provavelmente não existem) e sobretudo sem soar didática. É boa literatura latino-americana com todo o peso que esse título traz.

Garotas Mortas (★★★★)
Selva Almada, Argentina, 2014 / Todavia Livros