canções para o fim do mundo


Não tem coisa que eu ame mais do que a poesia conversada; a poesia que conversa (um filme falado). Ou talvez sim, talvez eu ame mais a poesia que conversa num tom sóbrio, a garganta honesta, um assunto que eu sei discutir. Diálogo. Comodidade (não tenho vergonha de querer o louro sem o esforço). Quero que alguém me apresente ao menino Thiago para que eu seja o melhor amigo dele e ele me diga poesia de Eduardo Coutinho, poesia de Adirley Queirós, poesia de canção. Só canção mesmo, sem cantor, sem banda. Como o mundo é; uma poesia toda, sem cantor, sem banda. Ele diz "gosto de escrever poemas / que também acabam / mas quando eu acabo / gosto de ouvir canções", e é cada um com seu método. Eu por exemplo gosto de ouvir canções nos entrementes do processo (por isso perco a métrica, brigamos eu e ela) e ainda bem, que assim seja. Ele diz "às vezes eu acredito / no mundo / às vezes não" e é um mundo que acaba, um mundo Rio de Janeiro, Vila Isabel, todo violência e calor e falta de ônibus, que já acabou. O que se faz com quem faz o mundo deixar de ser? Ele diz "imagine agora / só existem no mundo / canções e caixas / de fósforo". Eu fico por aí. É um megamíni de 24 páginas editado pela 7letras onde cabe um mundo inteiro de audio e visual, e estou severamente impressionado. Sinto uma coisa nas solas dos meus pés.

Canções para o fim do mundo (★★★★)
Thiago Gallego, Brasil, 2016 / Editora 7letras