os buracos


Comecei a alguns dias atrás esse projeto pessoal de, sempre que possível, passar autores brasileiros iniciantes para o topo da minha lista de leituras; não como forma de fazer "justiça" a um porção pouco lida e divulgada da literatura nacional, mas para saber quais tem sido os pontos de partida e novas propostas criativas locais. Desde o lançamento de seu primeiro romance, o bem comentado Vitória, o catarinense Giovanni Arceno flutuava em torno de meus desejos literários mas infelizmente não consegui por as mãos no material antes que surgisse a oportunidade ler Os Buracos, seu segundo e recém-lançado trabalho, disponível apenas em suporte digital.

Não tenho como contrastar Os Buracos com o primeiro esforço do rapaz, mas posso sim pensá-lo num universo dessa novíssima literatura que não encontrou chancela debaixo da asa de grandes editoras e precisa buscar outros meios de acontecer. A princípio, retomo uma sensação que não consigo objetivar com clareza mas sinto repetida em boa parte dos livros desta 'safra', que é a do receio frente às palavras. Tanto nos livros de Hugo Pernet e Rodrigo Tavares, para citar duas leituras recentes, quanto neste, os escritores parecem atracados num espaço de grandes pretensões e criatividade que são negadas por certo receio em tomar a palavra escrita para si, para seu estilo, para seus desejos.

Em Os Buracos isso se dá mais objetivamente na construção dos diálogos, que mesmo amplamente verossímeis para as situações propostas, exalam um tom blocado e planejado demais. A saber: Arceno escreve neste livro sobre um publicitário da "cidade grande" que encontra uma mina de ouro ao se ver convidado para trabalhar na campanha política de um prefeito numa minúscula cidade interiorana. Então estão ali pertinentes e francamente contemporâneas discussões sobre as perversidades da política brasileira, da manipulação publicitária, e sobretudo do posicionamento individual frente às questões elementares de certo/errado. Curiosamente, e ao contrário da ocorrência comum, Arceno não peca pela prolixidade, mas pela brevidade.

Dotado de personagens tão cativantes, é uma pena que o livro seja uma leitura tão curta; havia fôlego de sobra para esmiuçar desde o psicológico do protagonista de moral dúbia, até todas aquelas figuras que habitam a pequena cidade (Paulão é dos melhores personagens que li recentemente) e despejam suas pequenas expectativas em ritmo frenético ao longo das páginas. Curiosamente, por vezes me sentia lendo o roteiro de um bom filme (espero que o autor também tenha pensado nisso). Saliento: não se trata de um mau livro, mas falta ao autor, assim como a tantos outros que agora enveredam pela escrita, um pouco de ousadia e crença no próprio estilo. Fico ansioso pelo próximo.

Os Buracos (★★★)
Giovanni Arceno, Brasil, 2018 / e-galáxia