thoroughbreds


Cada vez mais me incomoda essa tentativa de resumir um filme soterrando-o em comparações e esquadrinhando cada um de seus cantos na esperança de remeter a algum possível par. Thoroughbreds, estreia do dramaturgo e ator Cory Finley na direção de cinema, surgiu em Sundance como o novo Heathers, o afilhado estilístico de O Iluminado, um aspirante à secura e humor de Whit Stillman, um Pacto Sinistro para o século 21, um primo próximo das estripulias estéticas e narrativas de Yorgos Lanthimos, e ainda que nenhuma dessas aproximações seja propriamente descabida elas pouco fazem para iluminar os curiosíssimos ‘porquês’ deste filme.

Thoroughbreds (termo em inglês que traduz literalmente em ‘puro-sangue) é, acima de tudo, um filme falado. Concebido originalmente como uma peça, o universo comicamente grotesco e destituído de amarras morais pensado por Finley deve muito de seu fôlego ao fato de ser um filme onde basicamente se projetam intenções, mapeiam-se trajetos sentimentais, e a ação física per se toma um espaço secundário, deixando para a fala, para o gesto verbal, dar conta da narrativa. Diferente de um Aaron Sorkin, para quem a velocidade e a intensidade de um diálogo são o norte, o texto de Finley beira o farcesco e permite respiros carregados de dubiedade. É quase como assistir uma apresentação de spoken word em que os declamadores tem péssimas intenções.

Entretanto este pé muito bem fincado na palavra como fio condutor não se transfigura num filme plasticamente duro ou pouco imaginativo; a virtuosidade despendida nos enormes planos sequencia que serpenteiam pelos espaços, por exemplo, toca perigosamente nos limites do necessário. A pouca experiência de Finley com uma câmera pode ser sentida não pela falta, mas pelo excesso. Tentando pontuar cada momento de sua trama com uma rima visual ou um enquadramento imponente, ele compromete um jogo praticamente ganho. As agente mais importantes no balanceamento dessas potências vão ser suas atrizes (Anya Taylor-Joy e Olivia Cooke), que abraçam muito bem esse flerte discreto com a sociopatia e realinham o filme com seu real ponto de interesse.

Esta, afinal, é uma história sobre duas adolescentes abastadas -uma pouco menos psicologicamente ajustada que a outra- que se envolvem no planejamento de um homicídio a partir de um motivo não necessariamente justificável ou coerente, e poucas coisas soam tão interessantes (ao menos num filme) quanto a exploração geográfica e sociológica do mal que não se justifica logicamente. Há quem insista nessa comparação, mas creio que justamente sua atenção tão refinada ao que essas pessoas dizem para atribuir alguma coerência à sua perversidade é o que separa este dos filmes indie genéricos que geralmente povoam Sundance.

Pode ser que os momentos finais resvalem em algo genérico desse molde quando insistem em tentar converter a trama num bem intencionado conto sobre o poder transformador da amizade, mas prefiro me abraçar ao humor negro e niilista que domina sua maior porção. Entendo quem discorda.

Thoroughbreds (★★★½)
Cory Finley, Estados Unidos, 2018