zama


Algumas semanas atrás li um texto do crítico Adrian Martin intitulado To The Victims of Expectation, uma breve mas interessante crítica sobre o Zama, de Lucrecia Martel. Adentrei a leitura acreditando que seu título, “Para as vítimas da expectativa”, tratava dos espectadores que pisavam em terreno espinhoso ao acreditar que receberiam da diretora argentina algo parecido com o realismo formal de seus primeiros trabalhos, e viam frente a algo muito novo e muito difícil de engolir numa primeira reflexão mas, curiosamente, a frase é retirada da epígrafe do livro homônimo de Antonio di Benedetto, que deu origem ao filme.

Benedetto condensa nessa breve introdução todo o martírio de Don Diego de Zama, personagem intrinsecamente kafkiano que desperdiça seus dias em labirintos burocráticos na colônia espanhola de Assunção, Paraguai, à cata de uma licença para retornar a sua terra natal. Longe de qualquer nota carismática, Don Diego é um personagem de seu tempo: mesmo que subalterno a uma coroa e ao exaustivo processo infligido por esta, ele segue abraçado a seu próprio brio, fazendo valer o ralo punhado de poder que lhe cabe. Esses jogos mesquinhos de poder são estabelecidos logo no início do filme de Martel, quando o protagonista é descoberto observando um grupo de escravas tomar banho e estapeia a que decide correr atrás dele. Se não desemboca em qualquer reflexão, mostra com clareza o tipo de pessoa que precisamos acompanhar.

Tão irresoluto quanto esse momento é todo resto da trama, que nesse ponto muito se parece com o mosaico proposto pela diretora em O Pântano, seu primeiro e até então melhor filme. Se naquele espetacular apanhado de cheiros mofados e gritos roucos Martel radiografava a decadência (sentimental?) da classe média argentina a partir de uma narrativa vibrante -e não o caminho inverso-, Zama parece render o mesmo tipo de pensamento mas observando a decadência de um sentimento colonial. Somente ao se ver cada vez mais distante desse epicentro de falso idílio, cada vez mais intensamente castigado com a excruciante pena da espera, é que Don Diego passa a perceber coisas; se não sobre o mundo, pelo menos sobre si próprio. Inclusive é interessante que um filme que se diverte tanto às custas da falência de um regime escravocrata seja taxado de racista.

É curioso também que 62 anos após seu lançamento, a conterrânea de Benedetto tenha transformado as páginas de Zama num filme impiedosamente jovem. O fervilhar de Martel na transposição do livro para a tela me lembra aquele de um Julio Bressane -certamente nosso cineasta mais jovem- ao adaptar Machado de Assis em A Erva do Rato, ou o mito de Cleópatra no filme homônimo. Para além da ruidosa adaptação per se, existem ainda as disrupções estéticas mais saborosas, como ver a fotografia de Rui Poças perverter aquilo que poderia muito bem ser uma imagem de Rugendas ou Eckhout, e transformá-la num chiste com a pompa de seus tempos. As cores e as composições são todas impressionantes, e parecem estar sempre a serviço de uma fina ironia, como quando uma lhama invade sorrateiramente uma situação tensa ou uma cavalaria se enfia num sem número de confusões ao atravessar um charco.

Não se trata de irreverência para com o material original, mas a consciência básica de que se trata de um processo de criação tão rico quanto aquele vivido pelo primeiro autor, e não somente subordinado a ele. Assim como fazem as imagens, também o heterogêneo processo de som, a exuberância da direção de arte, a gravidade das atuações (sobretudo de Daniel Giménez Cacho como o personagem título), são todas parte de uma anárquica brincadeira de invenção. Martel recorta e cola personagens, situações, transforma o não-dito no dito e vice-versa, e com isso perverte a história, a pedra fundamental do fato, que tantos tem em alta conta. Inventar, que não necessariamente é mentir, é muito mais divertido.

Zama (★★★★½)
Lucrecia Martel, Argentina, 2017