notas sobre o dia depois


Numa obra como a de Hong Sang-soo (praticamente um longa por ano, em 22 de carreira) em que se nota uma costura muito estreita entre estéticas, intenções, e temas, fica cada vez mais difícil encontrar um elemento disruptivo, algo que sirva como posicionamento para aquele filme em particular. Talvez o próprio processo de buscar essa disrupção seja uma grande perda de tempo mas se for o caso de apontá-la, O Dia Depois parece um bom exemplo de algo com que o diretor já flertou mas nunca levou às vias de fato.

Aparentemente tradicional para seus parâmetros, filmado no preto e branco sóbrio já utilizado em The Day He Arrives, O Dia Depois começa a subverter-se em ago que parece um melodrama -e assim pode ser lido, a depender do desejo de quem o faz- mas desemboca numa sex comedy de notas bastante ácidas. Os fãs mais ávidos do diretor devem perceber suas nuances de uma forma muito mais específicas; para quem admira de longe, receber algo que parece totalmente novo soa como uma lufada de ar fresco no relacionamento.

Existe um desejo, compreensível até certo ponto, de alinhar Sang-soo com Ozu, talvez o maior cronista de um certo modo de vida oriental. O desejo provavelmente parte da busca por um sucessor natural da tradição cunhada por certo artista renomado e revolucionário, cujos preceitos seriam importantes reverberar. Estão ali, em comum, uma observação de costumes e ideias tradicionais, e as mecânicas de suas sociedades, mas o coreano, diferente do japonês, me parece ter uma abordagem muito mais pop, mais interessada num eu e numa troca tão particulares que não resta grande espaço para meditações sobre um espírito nacional. É como tentar ler o cinema de Apichatpong Weerasethakul por um prisma de misticismo e religiosidade; estão lá, mas seus filmes não são isso. Antes de Ozu, Sang-soo deveria ser alinhado com o Rohmer dos Contos das Estações, o Swanberg de Um Brinde à Amizade, ou mesmo com o Woody Allen de Manhattan e Interiores, crônicas de uma investigação particular, esta sim, contida num todo.

Ouvi de passagem, e não procurei me informar a fundo, que a tríade composta por Na praia à noite sozinha, A câmera de Claire, e O dia depois são frutos do processo de Sang-soo tentando lidar com o término de seu casamento. Faz sentido, inclusive quando se pensa que além de darem grande abertura para o julgamento moral de um personagem masculino de caráter dúbio para dizer o mínimo, os três filmes são assombrados pela mesma imagem muito forte de uma mulher, atravessada por uma dúvida existencial muito cruel mas sempre firme em sua convicção, caminhando em direção ao horizonte.

Pode até ser a mais rudimentar e lúdica imagem para propor recomeço ou retorno a um ‘si’ elementar, mas ver os três filmes num espaço de alguns meses propulsiona em muito o impacto dessa imagem. Seja num drama denso como ‘Praia’, num exercício inclassificável e solar como ‘Câmera”, ou num objeto de humor mais marcado, de onde ‘Dia” está muito próximo, é mágico ver uma mesma composição se ajustar e definir seu peso no entorno de uma narrativa. Uma mulher que caminho pode ser recomeço, sim, mas pode ser festa, e pode ser abismo.

À cata de alguns textos sobre o filme me deparei com uma crítica (não me lembrarei da fonte agora) que usava a expressão “artimanhas de roteiro”, numa luz não muito lisonjeira, e por alguma razão aquilo me incomodou bastante. Sem dúvidas há uma coerência muito bem delineada e esquematizada na fluidez que conduz o filme. As discretas idas e vindas no tempo, a flutuação irrestrita entre os momentos de Song Areum e Changsook sem grande compromisso cronológico, a já notória câmera viva de Sang-soo que monta o filme em tempo real a partir do gesto e da palavra de seus personagens, tudo isso existe e de certa forma precede o roteiro, mas só se faz presente por conta dele. Abrir lacunas no discurso de uma personagem para que a outra desabroche e se desenvolva não é uma artimanha, é um passo narrativo e um caminhar natural.

De suas comédias, esta é talvez a mais rasgada e cartunesca, e isso se deve exatamente um roteiro extremamente consciente de seu tempo, espaço, e sobretudo personagens. Há quem chame de tolas estas mulheres, todas tão investidas em estabelecer seu espaço, sentimental ou intelectual, ao redor de um homem, mas talvez se esteja simplesmente subestimando sua inegável superioridade frente à figura lamentável que é o protagonista da trama.

Crítico literário e editor que não consegue verbalizar uma argumentação frente às proposições metafísicas da nova funcionária, não consegue explanar para a amante os descaminhos de sua vergonha, não consegue ser convincente para a esposa, seja mentindo ou falando a verdade; Bongwan é refém de uma língua e de uma linguagem perfeitamente elementar que todas as mulheres ao seu redor parecem dominar com perfeição enquanto ele mente sobre compreendê-la. Nesse sentido ele (e todo o filme) me lembra bastante o protagonista de A Academia das Musas, de José Luís Guerín. Enquanto um homem perde tempo se crendo capaz, as mulheres já terminaram a tarefa.


O Dia Depois (★★★★)
Hong Sang-soo, Coreia do Sul, 2017