nuvens


Nos versos de “Poeta”, uma das pérolas contidas na pérola maior que é Nuvens, Hilda Machado cita Adélia Prado, Hilda Hilst e Orides Fontela (me surpreende não ter citado Ana Cristina Cesar) para dar coro a sua deliciosa provocação: “que a minha inveja é só de mulher e absinto / pra eu beber em cálice / homem pra mim é sempre muso”, rasgou. “Poeta” contêm uma das pequenas chaves que abrem os segredos da Hilda poeta, muito diversa da Hilda pesquisadora e professora ou da Hilda cineasta premiada. “mostrar a quem hei de?” indagava; infelizmente nunca saberá o que tantos viram e reviram.

É só abrir o prefácio da edição recentemente lançada para descobrir todo o desenrolar da trama: com pretensões de publicação desde 1997, quando registrou na Biblioteca Nacional um primeiro manuscrito de Nuvens, alguma disrupção se abateu sobre o desejo de Hilda e suas aparições poéticas se deram muito brevemente, numa edição da revista Inimigo Rumor datada de 2004, e então editada por Carlito Azevedo.

“Miscasting”, poema todo fantasmagoria sobre uma atriz (ator?) desgostosa com as agruras de seu métier (“feliz ano novo / bem vindo outro/ como é que abre esse champanhe / como se ri”), assombrou o poeta Ricardo Domeneck, que a abraçou como sua Cesárea Tinajero (poeta cujo mistério norteia os protagonistas em Detetives Selvagens, de Bolaño) particular, e empreendeu uma busca em torno de seu mistério, até descobri-la falecida aos 56 anos, suicida, em 2007. O debruçar e redebruçar sobre a obra secreta, em parte guardada pela irmã, rendeu esse lançamento, memorial brevíssimo, abraço póstumo na grande poeta que não foi.

Citei Ana anteriormente não apenas pelo amargo que é um artista ter seu mundo realmente descoberto tanto tempo depois de sua morte, mas porque no dissenso e no atrito que surge das obras de ambas -Hilda algo mais brincante, e raivosa em sua brincadeira, que a colega- se delineia uma área comum, um espaço cinza (colorido) de redescoberta do cotidiano a partir de sua superexposição, de sua filtragem até os movimentos mais fundamentais. Houve tempo para investigar como Ana procedia nesse desejo de desvelar as fibras de seus sentimentos, mas Hilda, apesar de contemporânea a ela, é uma chegada recente, e, sobretudo, é Hilda apenas; não é Ana. Como posicioná-la? Como lê-la? É uma poeta do hoje, do agora, ou de um agora que não nos pertence mas ainda tem toda moral para nos falar?

É uma discussão sem dúvida importante, mas que cai no limbo do desinteresse quando se objetiva o enfrentamento: ler e viver as nuvens de Hilda é mais importante que analisá-las friamente, cronologicamente. São trajetórias como a de “Azul”, que propõe um dossiê de Ricardos em tom bem menos solene do que Shakespeare aceitaria (“Ricardo III / que não quer um trono / riso de vilão a quem falam as musas / galeão afundado em mar de cromakey”), ou como a de “Sem Título”, este sim um recorte pulsante do mais genérico -e por isso tão duro- amargor da existência (“Tem gente que vem a trabaho,/ eu vim a passeio — e não gostei”), que revelam um gosto de autoironia, e também autointitulação, que só podem pertencer ao poeta verdadeiramente liberto das amarras cruéis da forma e da teoria.

É difícil -ao menos para mim- não posicioná-la afetivamente ao lado de Ana Martins Marques, talvez a mais anarquicamente meticulosa poeta que a cena contemporânea brasileira viu nascer; as duas parecem esquadrinhar os descaminhos e não-lugares de seus sentimentos pegando-os pela mão, com afeto que não sente remorso. Porém outra vez, a chave do mistério Hilda não é emparelha-la com suas iguais e contemporâneas, ainda que isso possa criar um norte para melhor saborear sua obra. Talvez o mais interessante seja pensar na cineasta e na poeta como uma só: Nuvens é um curta metragem; cheio de justaposições e fades, caminhos curtos e cortes bruscos que desembocam em espaços de contemplação, uma diegese firme, consciente de si e de sua narrativa. Uma comédia melancólica. Um filme breve e perfeito.

Nuvens (★★★★★)

Hilda Machado, Brasil, 2017 / Editora 34