março: resumo


filmes
Assassinato no Expresso do Oriente (½)
Kenneth Branagh, Estados Unidos/Reino Unido/Malta/França/Canadá/Nova Zelândia, 2017
Tanto tempo angariando países pra coprodução que aparentemente esqueceram de fazer o filme...

Eu, Tonya (★★)
Craig Gillespie, Estados Unidos, 2017
Tem texto sobre a Tonya aqui.

Aniquilação (★★)
Alex Garland, Reino Unido/Estados Unidos, 2018
Mirou em Stalker, não acertou em quase nada. O esforço de fazer um filme com pretensões tão grandiosas num orçamento bem menor que os padrões da indústria é notável e louvável, mas conceito não enche barriga. Depois do insípido porém divertido Ex-Machina eu não esperava grandes coisas de Alex Garland, ainda bem.

O Silêncio da Noite é que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras (★★½)
Petrônio de Lorena, Brasil, 2018
Confesso que às vezes eu sou o primeiro a questionar a abordagem agressiva que não raro permeia a discussão sobre questões identitárias e militantes no cinema, mas tem outras vezes que rola uma interrogação tão grande que não tem como não querer saber um pouco mais sobre as escolhas do filme. Não tenho qualquer conhecimento sobre a história da poesia de São José do Egito e adjacências -que como ambiente interiorano é provavelmente bastante patriarcal e machista-, mas me soa um pouco estranho que esse documentário carregue no título um verso de uma das três únicas personagens femininas que apresenta, e mergulhe com mais intensidade numa miríade de tramas e representações masculinas.
Severina Branca parece ser uma personagem interessantíssima mas, sendo este um filme-mosaico, é claro que não poderíamos nos ater à sua narrativa, no entanto não me parece que ela seja tratada com a mesma aura mítica e reverente que seus pares recebem. Dito isso, me interessou descobrir alguma coisa sobre o universo de repentistas, glosadores e toda sua mitologia que, por si só um espectro tão rico de imagens, merecia um apuro visual mais cativante. A porção final do filme usa projeções nas paredes da cidade de uma maneira muito interessante; se essa escolha plástica fosse replicada ao longo de toda sua duração em detrimento dos travellings-super-bonitos e dos planos-feitos-com-drones, que em quase nada dialogam com a experiência da narrativa, o resultado final seria bem mais interessante.

Paranoid Park (★★★★★)
Gus Van Sant, França/Estados Unidos, 2007
O que aconteceu com meu Gus pra sair dos trilhos tão violentamente como tem feito? Volta a fazer coisas assim Gus, esse filme era o cinema inteiro em duas horinhas. Perfeito.

Em Pedaços (★★)
Fatih Akin, Alemanha/França, 2017
É o caso de perguntar: você se importa? O drama da personagem de Diane Kruger parece vívido, real, doloroso em algum momento? A encenação de Fatih Akin sabe explorar os espaços físicos e psicológicos que essa mulher habita e atravessa de forma a criar alguma espécie de empatia entre ela e o espectador? Pergunto porque atravessei grande parte da duração de Em Pedaços totalmente desinteressado do destino dela. Se alguém se importou me diga o motivo.

La Fleurière (★★★★)
Ruben Desiere, Bélgica/Eslováquia, 2017

Western (★★★★½)
Valeska Grisebach, Alemanha/Bulgária/Áustria, 2017
Fiquei muito feliz de notar que a estreia comercial de Western criou um interesse no cinema da Valeska, que acompanho a bastante tempo. Western é um evento, uma investigação sobre masculinidades, territorialidades, fronteiras, barreiras visíveis e invisíveis filtrada através dos códigos do faroeste. Pode ser um dedinho esquemático aqui e ali, mas subverte a si mesmo o tempo inteiro ao discutir o papel do invasor e do invadido, e como essas forças jogam entre si.

Fred Astaire with a stomach full of Corn Chips and Valium (★★★★½)
Phillip Lopez, Estados Unidos, 2015

The Foreigner (★★★)
Martin Campbell, Reino Unido/China/Estados Unidos, 2017

Tarifa Noturna (★★★)
Jerzy Skolimowski, Polônia, 1962 

O Passageiro (★★★)
Jaume Collet-Serra, Reino Unido/França/Estados Unidos, 2018
Jaume Collet-Serra é o rei da farofa, quem concorda respira. O cinema de ação pode ainda estar sobrevivendo e experimentando com estéticas rigorosas (beijo, John Wick), mas um filme que tem consciência de suas falhas e limitações e usa isso para ser ainda mais divertido é sempre uma delícia. Amo.

Ainda vi um punhado de curtas de Geneton Moraes Neto restaurados pela recém-fundada Cinemateca Pernambucana mas não tenho os nomes certos para catalogar aqui, fica o registro.

livros
Minha Vida Sem Banho (★★)
Bernardo Ajzenberg, Brasil, 2014 / Rocco
Não muito tempo atrás eu comentei sobre Laços, de Domenico Starnone, e minha paixão sobre personagens desagradáveis. Minha Vida Sem Banho é repleto delas, mas todas falham miseravelmente em cativar ou render a menor centelha de interesse. A história do ambientalista que resolve abdicar do banho como forma de levar a ferro e fogo sua atenção para com o planeta se intercala com a personalidade francamente caricata de sua namorada, e os imbróglios passados e presentes de seus pais, e no fim das contas atravessamos uma trama francamente disforme que atira para tantos lados quanto o holocausto e a ditadura brasileira. Ajzenberg tem uma atenção muito bonita com as palavras, o que se nota especialmente no nível da frase, onde tudo parece encaixar delicadamente, o que infelizmente não rende um bom livro. 192 páginas que soam como 300.

O Martelo (★★★★★)
Adelaide Ivánova, Brasil/Portugal, 2017 / Garupa Edições
Escrevi uma coisa ou outra sobre esse livrão, aqui.

A Velocidade da Luz (★★★)
Javier Cercas, Espanha, 2014 / Biblioteca Azul
Soldados de Salamina, meu primeiro contato com Javier Cercas e seu mais famoso livro, me causou impressão muito boa. A trama quase policialesca de jornalismo investigativo com pitadas de autoficção que girava em torno da guerra civil espanhola -momento histórico do qual conheço pouco ou nada-, tinha uma energia e uma fluidez impressionantes, transformando quase todos os momentos numa redescoberta daqueles personagens e espaços que o autor te fazia acreditar já ter revelado por completo.
Achei que A Velocidade da Luz fosse ter o mesmo fôlego, mas apesar de ser quase um gêmeo na estrutura, em nada se sobressai ao anterior. Toda a trama do escritor ingênuo em busca da sua verdade como artista, e subsequente do escritor cansado em busca da reconciliação com sua arte podem render coisas grandiosas, mas a prosa de Cercas soa cansada, quase apologética por suas escolhas. Não seria isso de todo mal, mas aqui as pitadas autobiográficas e as escolhes de como conduzir os destinos dos personagens beiram o novelesco de tão arbitrárias. Segue sendo uma escrita incrivelmente fluida, desliza sem esforço, mas talvez a crise criativa que assolou o autor depois de Salamina seja justificável.

Amora (★★★)
Natalia Borges Polesso, Brasil, 2015 / Não Editora
Não tenho total conhecimento de causa, mas 'Amora' me parece um grande evento dentro de sua cena. Não consigo lembrar de outro momento na recente literatura brasileira em que a sexualidade e a afetividade lésbica tenham sido tratadas com tamanho desassombro e delicadeza. Nesta coletânea de contos vencedora do Jabuti, Natália investiga amores, dores, saudades, desejos de mulheres em vários estratos sociais, classes, raças e idades, mas quase sempre toma o caminho menos penoso, o caminho da celebração de seus amores, por mais complicados que possam ser.
O problema reside na extensão, talvez. Boa parte dos contos de 'Amora' são muito semelhantes entre si, sobretudo em estrutura narrativa, o que faz o livro se tornar algo cansativo muito rapidamente. Somado a isso está um segundo "capítulo" bem mais introspectivo e poético que a primeira porção do livro, que destoa de maneira algo brusca dos tons leves do início. Mas não deixa de ser uma leitura interessantíssima só por conta disso; nos momentos em que é genial -"Diáspora lésbica" é das coisas mais engraçadas que li nos últimos tempos-, é realmente genial.

Nunca vi as margens do rio Ybbs (★★★★)
Bernardo Brayner, Brasil, 2017 / Zazie Edições
Parece quase limitador definir este texto de Bernardo Brayner como um ensaio, ainda que o termo seja adequado. Amálgama de discussão sobre literatura e memória que surge a partir de uma vaga dicotomia entre o leste europeu e a América latina em todas as suas idiossincrasias, Brayner parece emular Perec e Vila-Matas na maneira como se diverte com as palavras, com sua exatidão, sua possibilidade de fabricar mundos e povoá-los sem compromisso com geografias preestabelecidas. Estou ansioso para ler seu primeiro livro.

Karen (★★★★)
Ana Teresa Pereira, Portugal, 2016 / Todavia
Uma checada na orelha confirma a suspeita que se desenvolve ao longo das poucas páginas desta novela da portuguesa Ana Teresa Pereira: o clima gótico e os ecos de Henry James e Hitchcock são o forte da autora, e Karen é aparentemente um dos melhores exemplos de seus exercícios de estilo. Trama hipnótica sobre uma mulher que se descobre refém numa vida que não percebe como sua, Pereira desvela o psicológico de Karen sem pressa nem pretensão policialesca. O destino dessa mulher pode se tornar óbvio rapidamente, mas se prender ao mistério não deveria ser o foco aqui. O quebra-cabeças que cada um de nós precisa -e nunca tem certeza de como- montar para nos sentirmos como nós mesmos é o que mais intriga.

Some Of Us Had Been Threatening Our Friend Colby (★★★★★)
Donald Barthelme, Estados Unidos, 2011 / Penguin
Estava lendo um ou outro comentário sobre o recente Lincoln no Limbo, romance super hypado e premiado de George Saunders, e invariavelmente todos evocavam Donald Barthelme nas tentativas de compreender e esquadrinhar o aparentemente curiosíssimo trabalho. Não me demorei, encontrei essa breve compilação com alguns de seus contos mais famosos de épocas distintas, e depois de lê-los em pouco menos de uma hora me senti na obrigação de uma releitura, e e depois da releitura fiquei com a leve impressão de que descobri uma outra literatura.Nova, louca, violenta, urgente, divertida, virtuosa, literatura.
Barthelme descreve o absurdo como alguém que compreende o absurdo profundamente, como alguém para quem o absurdo não é a forma invertida de ver o mundo, apenas a forma complementar. O conto que dá título ao volume é uma minúscula e impressionante história de crimes, castigos, e amizades cujos contratos se fazem cobrar. Leiam esse homem, pelamor. ps: Creio eu que a única tradução brasileira de Barthelme é o romance O Pai Morto. Uma pena, mas se você lê em inglês corra atrás.

Pé do Ouvido (★★★)
Alice Sant'Anna, Brasil, 2016 / Companhia das Letras
Ao pé do ouvido: uma grande confissão pequena, meio inventada, toda sussurrada. Tem cheiros e espaços de Ana Cristina César e Marília Garcia, mas está mais interessada no eco, no vai e vem da própria voz, na deformidade de suas intenções, no eterno movimento de ruas e calçadas e nomes de cidades, no eterno movimento de retorno, no repete por favor de um sussurro.
 

teatro
Espera o outono, Alice (★)
Amaré Grupo de Teatro, Brasil, 2018
Escrevi umas coisas sobre esse espetáculo aqui.