o martelo de adelaide

Mark Rothko

a banana
no porão tinha
uma mala dentro dela
josefine
que aí se escondia com
a ajuda da mãe para
que não fosse estuprada
afinal só se estupra alguém
que se acha o destino da
mãe não se sabe mas
josefine
está bem obrigada aos 11 anos
comeu banana pela
primeira vez oferecimento do
oficial francês que também
dava abortos às alemães
que não tinham martelos
ou malas.
Adelaide Ivánova

Em algum momento do ano passado experimentei um choque muito interessante ao provar de artefatos poéticos que surgiam e confluíam em ambientes bastante similares, mas cujos processos e práxis eram notoriamente distintos. Ainda que, diga-se de passagem, nenhuma das duas experiências tenha sido tão cativante por si só quanto a observação do diálogo que provocavam ao serem emparelhadas, me vi automaticamente remetido à suas imagens enquanto, recentemente, lia o fantástico O Martelo, da pernambucana Adelaide Ivánova.

A primeira, e mais imediata lembrança foi ‘milk and honey’ (no Brasil, Outros jeitos de usar a boca), da indiana-canadense Rupi Kaur. Nascida em 1992, Kaur tornou-se sensação internacional através de uma obra poética que só consigo territorializar num espaço de confluência entre a cosmética do trauma e a estética millenial/tumblr -não surpreendentemente, sua principal plataforma é o Instagram. Poetisa, feminista, e entusiasta de certas tendências contemporâneas que, geralmente em detrimento de uma fruição mais coerente, trazem o imediatismo da imagens e sentimentos para o primeiro plano, os escritos da autora remetem, por exemplo, às dimensões literárias de um Zack Magiezi ou um João Doederlein, para aqueles mais escolados na poesia mainstream brasileira. É a famosa “poesia urbana”.

A diferença essencial entre esses exemplos, porém, é que Kaur tem pouco ou nenhum interesse no efêmero e plástico da existência, e se debruça em temas como a auto-identificação e a violência sofrida pela mulher. É uma premissa muito rica e relevante, que remete bastante à obra da jovem poetisa Warsan Shire, por exemplo -hoje famosa por suas colaborações com Beyoncé- mas que, diferente dela, se deixa afogar completamente no desejo de prover uma voz ativa e compreensiva para seus pares tomando a rota mais didática possível, enquanto usa um verniz de urgência e dedo-na-ferida. Não há que se desmerecer uma eventual epifania causada por seus escritos, mas sempre me parece uma maneira muito pueril de se lidar, não só com o tema, mas com o gênero em si.

Toda vez que você
Diz à sua filha
Que você grita com ela
Porque a ama
Você a ensina a confundir
Raiva com bondade
O que parece uma boa ideia
Até que ela cresce
E passa a confiar em homens
que as machucam
Porque eles se parecem
Demais com você.
Rupi Kaur

Pouco depois do contato com Kaur conheci o trabalho da gaúcha Angélica Freitas, através de uma edição do Leia Mulheres Recife. Um útero é do tamanho de um punho, segundo livro da autora lançado em 2013 pela finada Cosac Naify e recentemente reeditado pela Companhia das Letras, toma um caminho que, se não diametralmente oposto, observa o mundo através de um filtro algo mais incisivo e inquisitivo. O útero do título denota que aquela é uma coleção totalmente dedicada a investigar o corpo feminino como matéria, como presença, como símbolo de uma revolução -interna ou externa.

Freitas, que já era um nome relevante no cenário da poesia contemporânea brasileira desde o lançamento de sua primeira coletânea, abraça um experimentalismo quase vertiginoso ao imaginar/descrever o peso de ter o corpo devassado pelo homem, pela mídia, pela internet, pelas próprias angústias, mas também guarda tempo para apreciar aquilo que é, sozinha ou em coletivo. Em ‘3 poemas com o auxílio do google’, por exemplo, ela indaga ao site de buscas o que uma mulher quer, ou pensa, ou vai fazer, e o resultado é um mosaico comovente e perturbador sobre quais são as expectativas que recaem sobre essa palavra de seis letras. Não sei se propriamente um ‘livro de protesto’, é fato que ‘útero’ envolve muita luta, e por vezes a luta se faz mais importante que qualquer outro aspecto.

a mulher é uma construção
a mulher é uma construção
deve ser

a mulher basicamente é pra ser
um conjunto habitacional
tudo igual
tudo rebocado
só muda a cor

particularmente sou uma mulher
de tijolos à vista
nas reuniões sociais tendo a ser
a mais mal vestida

digo que sou jornalista

(a mulher é uma construção
com buracos demais

vaza

a revista nova é o ministério
dos assuntos cloacais
perdão
não se fala em merda na revista nova)

você é mulher
e se de repente acorda binária e azul

e passa o dia ligando e desligando a luz?
(você gosta de ser brasileira?
de se chamar virginia woolf?)

a mulher é uma construção
maquiagem é camuflagem

toda mulher tem um amigo gay
como é bom ter amigos

todos os amigos têm um amigo gay
que tem uma mulher
que o chama de fred astaire

neste ponto, já é tarde
as psicólogas do café freud
se olham e sorriem

nada vai mudar –

nada nunca vai mudar –

a mulher é uma construção
Angélica Freitas

A edição brasileira de O Martelo tem a capa coberta por um pigmento vermelho que suja superfícies, dedos e roupas enquanto se lê. Nada supérfluo, esse detalhe específico transforma o livro de Adelaide Ivánova numa outra coisa. De uma coletânea de poemas ele se transfigura em peça de performance, de objeto livro para objeto vivo, e com uma coisa de fato viva em mãos o leitor não mais está em segurança. O sangue que jorra das páginas encharca a capa e cai em suas mãos como que num lembrete: ficção nunca é só ficção, a poesia é sempre verdade, não importa se mente. Como dizia antes, encontrar O Martelo foi como reabrir as comportas de um debate pessoal proporcionado por aquelas leituras e estagnado há muitos meses, mas para além das questões identitárias e estéticas, rendeu certa reflexão no que diz respeito à poesia, ao poema em si. Contemporâneas que são, Adelaide está muito bastante alinhada com a urgência de Angélica, mas trabalha numa frente distinta, onde a violência se entremeia a um caráter quase onírico, fabular. Em comum, a violência, no dissenso, a voz e a energia.

Advertidamente gestado a partir do hábito da autora de dormir com um martelo embaixo de seu travesseiro, a poesia aqui é sortilégio e epitáfio, um estado perpétuo de estagnação entre a entrega e o alerta. O desejo nutrido pelo misterioso Humboldt está inevitavelmente atrelado ao trauma do estupro, ao abismo revelador de tudo aquilo que se deixa abraçar pela ideia de ‘erótico’, por uma kafkiana noção de autoridade -que se revela em momentos especialmente cruéis, como aqueles em que o médico trata vítimas como ‘peças’. Se trata de uma progressão muito bem particionada que observa o traumático e o lascivo em seus lugares cabíveis, mas que também deixa espaço para investigar arestas mal polidas, a negação da dor, a negação da paixão, a aceitação de ambos como uma voz repleta de ecos, como no fantástico “a moral”, onde a poesia de amor é comicamente destroçada frente à acepção de uma realidade que nunca propôs se esconder: “… achei / que depois / de cruzar / todos os / sinais fechados / ao seu / lado arriscando / minha vida / teria o direito de chupar seu pau até amanhecer mas / a única / coisa sua / que comi / foi uma / mozartkugel nojenta / com recheio / de marzipã”.

O Martelo observa com atenção um processo de reestruturação. Existe uma vida que pulsa fraca frente a descrença perpetrada pelo violento do mundo, mas que se agarra aqui e ali a parâmetros conhecidos e coerentes, o que por fim terá rendido não apenas um grande e denso processo de observação do entorno, da arena metafórica em que a personagem se vê forçada a lutar, mas também a realização do eu, do poder que emana deste eu; tanto na aceitação das marcas irreparáveis infligidas a ele e que agora fazem parte deste todo, como na consciência de um poder de luta, de defesa. Como na epígrafe de Paul Celan, que a autora escolheu para abrir suas páginas “O tempo, de fina areia, canta em meus braços:/me aconchego nele, faca na mão”.

o martelo
o papa quando morre
leva uma
marteladinha
na testa eu nunca
martelei
ninguém
nem papa nem príncipe nem rei
quando a procissão
tem que seguir
o capataz dá três
marteladas
no andor e os
costaleiros seguem
martelo
é um decassílabo heroico
com tônicas nas posições
três seis e dez quando
o atleta termina o
molinete três voltinhas
em torno de si mesmo
pode lançar o
martelo que pesa sete kilos
duzentos e sessenta gramas
marx nunca falou sobre
martelo
algum quem já viu
escola de pensamento ter
símbolo qual seria o símbolo
da escola de frankfurt se
adorno tivesse escolhido um?quando thor bate seu
martelo
é sinal de chuva e trovão
mas é a flor do mandacaru
que anuncia chuva no
sertão para o tubarão-martelo o
martelo
funciona como uma asa
estabilizando seus
movimentos além disso
o ritual de acasalamento
dos tubarões-martelo
é muito violento
na bandeira da albânia
comunista substituíram o
martelo
por um fuzil o
martelo
é um objeto ótimo
que serve pra dormir bem
ou pregar pregos

Adelaide Ivánova