fevereiro: resumo

Queria poder usar a desculpa que fevereiro foi devagar por causa do carnaval mas na real foi só falta de vergonha na cara mesmo. Seguimos.

-FILMES-

Amores Expressos (★★★★½)
Wong Kar Wai, Hong Kong, 1996
Porque não 5 estrelas?

The Post (★★★)
Steven Spielberg, Estados Unidos, 2018
Fui assistir achando que 1) era sobre Watergate e 2) ia ser péssimo. Nem uma coisa nem outra. Spielberg com um pouquinho de cheiro de mofo e uma vibe meio America The Greatest/nós contra eles, mas nada que ofenda. Divertido até. O Spotlight do ano.

The Cloverfield Paradox
(★)
Julius Onah, Estados Unidos, 2018
Bragaboys - Bomba.mp3

All the Money in the World (★★)
Ridley Scott, Estados Unidos, 2018
Como num bom número dos filmes mais recentes do Scott (ou de sua filmografia toda, verdade seja dita) tem alguma coisa muito boa acontecendo embaixo de toda a cacofonia, mas o esforço pra investigar não compensa muito. Triste.

Phantom Thread (★★★)
Paul Thomas Anderson, Estados Unidos/Reino Unido, 2017
Vício Inerente foi minha reconciliação com Paul Thomas Anderson. Depois de reações mornas a Sangue Negro e O Mestre, tudo que eu queria dele era um filme ensandecido na significância mais instrumental da palavra. Trama Fantasma soa, talvez, como um passo a frente na sua trajetória como diretor, mas um passo atrás da sua relação comigo, o que é mais importante para mim, obviamente. Toda essa presepada de assepsia, clima, cinema como abismo, desejo como sortilégio, é muito curiosa de se analisar num plano puramente intelectual, mas só isso já não me alimenta o suficiente. Trama Fantasma tem personagens enigmáticos e bem construídos, mas francamente insuportáveis, e não do tipo cativante. No resumo da ópera é o famoso "you're doing great, sweetie"; está tudo ótimo, eu só não me importo.

Molly's Game (★★★)
Aaron Sorkin, China/Estados Unidos/Canadá, 2017
Grande sacanagem quando o filme carrega o nome da protagonista no título, e ela se mostra a coisa menos interessante do processo. As coisas que acontecem com a Molly são muito curiosas, sobretudo porque acompanhadas a partir dos diálogos frenéticos de Aaron Sorkin (muito melhor escrevendo que dirigindo), mas a figura em si não tem o apelo que se acredita. Enfim, não ofende.

-LIVROS-

Mata Teu Pai (★★★★)
Grace Passô, Brasil, 2017 / Cobogó
Muitas vezes ler teatro me soa mais excitante que assistir o produto acabado. Se pudesse ver Mata Teu Pai eu certamente veria, mas dar a minha própria dimensão a loucura (lucidez!) da Medeia moderna de Grace Passô e Debora Lamm é um exercício muito interessante. Monólogo virulento sobre a violência e o feminino e tantas coisas mais, é um texto tão pequeno que impressiona por seu poder, de síntese e discurso. Impressiona inclusive pelo seu clamor de urgência, essa mulher precisa, ainda depois de tanto tempo se arrastando pela história, gritar para se fazer ser ouvida numa geografia e pontuação sentimental predominantemente masculina. Gritar e matar.

Laços (★★★★)
Domenico Starnone, Itália, 2014 / Todavia
Elena Ferrante ou não? Sei lá. Escrevi sobre aqui.

Luzes de emergência se acenderão automaticamente (★★★★)
Luisa Geisler, Brasil, 2014 / Alfaguara
Ali pela metade do livro da Luisa eu comecei a me aborrecer com a voz repetitiva do Ike. Já tinha entendido as questões dele, sua dificuldade em lidar com o coma do melhor amigo, a situação psicológica da namorada, a confusão de sua sexualidade, as cobranças familiares e da carreira próprias da idade, e portanto sua sucessão de cartas-diário começavam a parecer desnecessárias. E aí subitamente todas essas questões ganharam uma perspectiva: essa é uma pessoa tentando organizar seus pensamentos, e não um livro editado por alguém que vai ajustar coesões e coerências. Aí a Luisa me ganha. O Ike está triste mas não tanto, confuso mas não muito, apaixonado mas com questões, e ainda que seja fácil para uma escritora de 20 e poucos anos falar de si e dos seus, entrar com tanta força na mente do tudo mediano, do tudo à meia tensão, não é particularmente simples. A banalidade precisa ser abraçada sem reservas, e um livro que começa com uma epígrafe do Arctic Monkeys está no caminho certo. Agora eu preciso ler Quiçá e mandar um abraço pra Luisa.

O Louco de Bergerac (★★★)
Georges Simenon, França, 1932 / Nova Fronteira
Talvez a tal da novela policial não seja pra mim. Achei esse Simenon num sebo qualquer por 1 real, li em uma hora quando a internet caiu; entrei e saí do mesmo jeito. Aparentemente essa é uma das aventuras mais curiosas do famoso detetive Maigret, já que avariado por um acontecimento logo no início da trama ele precisa resolver todo o caso a partir de seu quarto, mas tirando as curiosas opções narrativas de Simenon, o tal mistério é pouquíssimo cativante. Talvez seja o caso de catar algum guia dedicado a livros de mistério e seguir o cânone, já que minhas visitas a Conan Doyle, Agatha Christie e Lars Kepler não renderam muito efeito.

O Xará (★★)
Jhumpa Lahiri, Estados Unidos/Índia, 2003 / Biblioteca Azul
Se a autora eliminasse as intermináveis e detalhadas descrições que faz de todos os personagens, cenários e momento de O Xará, o livro seria reduzido de 300 para, no máximo, 50 páginas. Pior de tudo, restaria apenas uma história francamente clichê sobre identidade cultural e auto-descoberta cujos poucos momentos interessantes não dão conta de segurar o tranco. Não entendo o culto em torno deste de jeito nenhum.